quarta-feira, 10 de junho de 2009

Ludentis

Desde que comecei a leitura de Homo Ludens de Johan Huizinga eu esperava uma deixa pra introduzi-lo nesse diálogo que temos no blog. Ao invés de contrapor ou ir mais além para dentro da academia, vou dar um passo atrás, colocar fragmentos editados pouco criteriosamente desse texto que de maneira muito tranquilo nos leva num passeio pela civilização humana construindo as bases da cultura e do nosso comportamente e explicitando os elementos lúdicos presentes neles.

Sem mais, vamos a alguns fragmentos:

HUIZINGA, Johan [tradução João Paulo Monteiro]. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva, 2007.

Prefácio

Em época mais otimista que a atual, nossa espécie recebeu a designação de Homo sapiens. Com o passar do tempo, acabamos por compreender que afinal de contas não somos tão racionais quanto a ingenuidade e o culto a razão do sécullo XVIII nos fizeram supor, e passou a ser de moda designar nossa espécie como Homo faber. Embora faber não seja uma definição do ser humano tão inadequada como sapiens, ela é, contudo, ainda menos apropriada do que esta, visto que pode servir para designar grande número de animais. Mas existe uma terceira função, que se verifica tanto na vida humana como animal, e é tão importante como o raciocínio e o fabrico de objetos: o jogo. Creio que, depois de Homo faber e talvez ao mesmo nível de Homo sapiens, a expressão Homo ludens merece um lugar na nossa nomenclatura.

[...]

Assim, o jogo é aqui tomada como fenômeno cultural e não biológico, e é estudado em uma perspectiva histórica, não propriamente científica em sentido restrito. [...] Se eu quisesse resumir meus argumentos sob a forma de teses, uma destas seria que a antropologia e as ciências a ela ligadas têm, até hoje, prestado muito pouca atenção ao conceito de jogo e à importância fundamental do fator lúdico para a civilização.

[...]

1. Natureza e Significado do Jogo como Fenômeno Cultural

O jogo é mais antigo que a cultura, pois esta, mesmo em suas definições menos rigorosas, pressupõe sempre a sociedade humana; mas, os animais não esperaram que os homens os iniciassem na atividade lúdica. É nos porssível afirmar com segurança que a civilização humana não acrescentou característica essencial alguma à idéia de jogo.

[...]

Desde já encontramos aqui um aspecto muito importante: mesmo em suas formas mais simples, ao nível animal, o jogo é mais do que um fenômeno fisiológico ou um reflexo psicológico. Ultrapassao os limites da atividade puramente física ou biológica. É uma função significante, isto é, encerra um determinado sentido. No jogo existe alguma coisa " em jogo" que transcende as necessidades imediatas da vida e confere um sentido à ação. Todo jogo significa alguma coisa. Não se explica nada chamando de " instinto" ao princípio ativo que constitui a essência do jogo; chamar-lhe "espírito" ou "vontade" seria dizer demasiado. Seja qual for a maneira como o considerem, o simples fato de o jogo encerrar um sentido implica a presença de um elemento não material em sua própria essência.

[...]

Se alguma delas [explicações sobre os porquês do jogo] fosse relamente decisiva, ou eliminaria as demais ou englobaria todas em uma unidade maior. A grande maioria, contudo, preocupa-se apenas superficialmente em saber o que o jogo é em sí mesmo e o que ele significa para os jogadores. Abordam diretamente o jogo utilizando-se dos métodos quantitativos das ciências experimentais, sem antes disso rpestarem atenção a seu caráter profundamente estético.[...] E, contudo, é nessa intensidade, nessa fascinação, nessa capacidade de excitar que reside a própria essência e a característica primordial do jogo. O mais simples raciocínio nos indica que a natureza poderia igualmente ter oferecido a suas criaturas todas essas úteis funções de descarga de energoa excessiva, de distensão após um esforço, de preparação para as exigências da vida, etc, soba a forma de exercícios e reações puramente mecânicos. Mas não, ela nos deu a tensão, a alegria e o divertimento do jogo.

[...]

Este último elemento, o divertimento do jogo, resiste a toda análise e interpretação lógicas. [...] E é ele precisamente que define a essência do jogo. Encontramo-nos aqui perante uma categoria absolutamente primária da vida, que qualquer um é capaz de identificar desde o próprio nível animal. É legítimo considerar o jogo uma "totalidade", no moderno sentido da palavra [...].

Como a realidade do jogo ultrapassa a esfera da vida humana é impossível que tenha seu fundamento em qualquer elemento racional, pois nesse caso, limitar-se-ia à humanidade. A existência do jogo não está ligada a qualquer grau determinado de civilização, ou a qualquer concepção do universo. Todo ser pensante é capaz de entender à primeira vista que o jogo possui uma realidade autônoma, mesmo que sua lingua não possua um termo geral capaz de defini-lo. A existência do jogo é inegável. É possível negar, se se quiser, quase todas as abstraçõe: a justiça, a beleza, a verdade, o bem, Deus. É possível negar-se a seriedade, mas não o jogo.

[...]

As grandesa tividades arquetípicas da sociedade humana são desde o início, inteiramente marcadas pelo jogo. Como por exemplo, no caso da linguagem, esse primeiro e supremo instrumento que o homem forjou a fim de poder comunicar, ensinar e comandar. É a linguagem que lhe permite distinguir as coisas, defini-las e constatá-las, em resumo, designá-las e com esta designação elevá-las ao domínio do espírito. Ma criação da fala e da linguagem, brincando com essa maravilhosa faculdade de designar, é como se o espírito estivesse constantemente saltando entre a matéria e as coisas pensadas. Por detrás de toda expressão abstrata se oculta uma metáfora, e toda a metáfora é jogo de palavras. Assim, ao dar expressão à vida, o homen cria um outro mundo, um mundo poético, ao lado do da natureza.

Outro exemplo é o mito, que é também uma transformação ou uma "imaginação" do mundo exterior, mas implica em um processo mais elaborado e complexo do que ocorre no caso das palavras isoladas. O homem primitivo procura, através do mito, dar conta do mundo dos fenômenos atribuindo a este um fundamento divino. Em todas as caprichosas invenções da mitologia, há um espírito de fantasia que joga no extremo limite entre a brincadeira e a seriedade. Se, finalmente, observarmos o fenômeno do cultom verificaremos que as sociedades primitivas celebram seus ritos sagrados, seus sacrifícios, consagrações e mistérios, destinados a assegurarem a tranquilidade do mundo, dentro de um espírito de puro jogo, tomando-se aqui o verdadeiro sentido da palavra.


Ora, é no mito e no culto que tem origem as grandes forças instintivas da vida civilizada: o direito e a ordem, o comércio e o lucro, a indústria e a arte, a poesia, a sabedoria e a ciência. Todas elas tem suas raízes no solo primevo do jogo.

[...]

Chegamos assim à primeira das características fundamentais do jogo: o fato de ser livre, de ser ele próprio liberdade. Uma segunda característica, intimamente ligada à primeira, é que o jogo não é vida "corrente" nem vida " real". Pelo contrário, trata-se de uma evasão da vida "real" para uma esfera temporária de atividade com orientação própria.[...] Ele se insinua como atividade temporária, que tem uma finalidade autônoma e se realiza tendo em vista uma satisfação que consiste nessa própria realização. É pelo menos assim que, em primeira instância, ele se nos apresenta: ocmo um intervalo em nossa vida quotidiana. [...] Nessa medida, situa-se numa esfera superior aos processos estritamente biológicos de alimentação, reprodução e autoconservação.

[...]

O jogo distingue-se da vida "comum" tanto pelo lugar quanto pela duração que ocupa. É esta a terceira de suas características principais: o isolamento, a limitação. É "jogado até o fim" dentro de certos limites de tempo e de espaço. Possui um caminho e sentido próprios.

[...]

Reina dentro do domínio do jogo uma ordem específica e absoluta. E aqui chegamos a sua outra característica, mais positiva ainda: ele cria ordem e é desordem. Introduz na confusão da vida e na imperfeição do mundo uma perfeição temporária e limitada, exige uma ordem suprema e absoluta: a menor desobediência a esta "estraga o jogo", privando-o de seu caráter próprio e de todo e qualquer valor. É talvez devido a esta afinidade profunda entre ordem e o jogo que este, como assinalamos de passagem, parece estar em tão larga medida ligado ao domínio da estética. Há nele uma tendência para ser belo. [...]

O elemento de tensão [...] desempenha um papel especialmente importante. Tensão significa incerteza, acaso. Há um esforço para levar o jogo ao desenlace, o jogador quer que alguma coisa "vá" ou "saia", pretende "ganhar" à custa de seu próprio esforço.[...] Embora o jogo enquanto tal esteja para além do domínio do bem e do mal, o elemento de tensão lhe confere um certo valor ético, na medida em que são postas à prova as qualidades do jogador: sua força e tenacidade, sua habiliade e coragem e, igualmente, suas capacidades espirituais, sua "lealdade". Por que, apesar de seu ardente desejo e ganhar, deve sempre obedecer às regras do jogo.

[...]

Numa tentativa de resumir as características formais do jogo, poderíamos considerá-lo uma atividade livre, conscientemente tomada como "não-séria" e exterior à vida habitual, mas ao mesmo tempo capaz de absorver o jogador de maneira intensa e total. É uma atividade desligada de todo e qualquer interesse material, com a qual não se pode obter qualquer lucro, praticada dentro de limites espaciais e temporais próprios, segundo uma certa ordem e certas regras. Promove a formação de grupos sociais com tendência a rodearem-se de segredo e a sublinharem sua diferença em relação ao resto do mundo por meio de disfarces ou outros meios semelhantes.

[...]

12. Elemento Lúdico na Cultura Contemporânea

[...]

"Ele considerava jogos infantis todas as opiniões humanas" diz a tradição grega mais tardia acerca de Heráclito. Em oposição a esta frase lapidar, citemos agora de maneira mais extensa as profundas palavras de Platão [...] "Embora as coisas humanas não se caracterizem por uma grande seriedade, mesmo assim é necessário ser sério, ainda que issonão contribua para nossa felicidade... É preciso tratar com seriedade aquilo que é sério enada mais. Só Deus é digno de suprema seriedade, e o homem nçao passa de um joguete de Deus, e é esse o melhor aspecto de sua natureza. Portanto, todo homem e mulher devem viver a vida de acordo com essa natureza, jogando os jogos mais nobres, contrariando suas inclinações atuais... Pois eles consideram a guerra uma coisa séria, embora não haja na guerra jogo ou cultura dignos desse nome, justamente as coisas que nós consideramos as mais sérias. Portanto, todos devem esforçar-se ao máximo por viver em paz. Qual é, então, a maneira mais certa de viver? A vida deve ser vivida como jogo, jogando certos jogos, fazendo sacrifícios, cantando e dançando, e assim o homem poderá conquistar o favor dos deuses e defender-se de seus inimigos, triunfando em combate." Assim "os homens viverão de acordo com a natureza, pois sob muitos aspectos eles são como fantoches e só possuem uma pequena parte da verdade."

[...]

Sempre que nos sentirmos presos de vertigem, perante a secular interrogação sobre a diferença entre o que é sério e o que é jogo, mais uma vez encontraremos no domínio da ética o, ponto de apoio que a lógica é incapaz de oferecer-nos. Conforme dissemos desde o início, o jogo está fora desse domínio da moral, não é em sí mesmo nam bom nem mau.Mas sempre que tivermos de decidir se qualquer ação a que somos levados por nossa vontade é um dever que nos é exigido ou é lícito como jogo, nossa consciência moral prontamente nos dará a resposta. Sempre que nossa decisão de agir depende da verdade ou da justiça, da compaixão ou da clemência, o problema deixa de ter sentido. Basta uma gota de piedade para colocar nossos atos acima das distinções intelectuais. Em toda a consciência moral baseada no reconhecimento da justiça e da graça, o dilema do jogo e da seriedade, até aqui insolúvel, deixará de poder ser formulado.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Paradoxo na acadimia

Li, ha poucos instantes, uma coisa que me fez parar:
...a crítica cerrada a essa crença exacerbada na razão e na ciência, característica da modernidade, viria a constituir um dos principais eixos inspiradores do que se convencionou chamar de "condição pós-moderna"
(Harvey, 1992).

Em: Eva Barbosa Samios. Conhecendo o conhecimento: questões lógicas e teóricas na crítica da ciência e da razão.

Crença na razão (e na ciência)??? Na minha concepção capenga isso parece um paradoxo. Só o véio Adorno nos socorre neste momento. A miopia do paradoxo não o deixa enxergar a dialética.

"No sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores. Mas a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal. O programa do esclarecimento era o desencantamento do mundo. Sua meta era dissolver os mitos e substituir a imaginação pelo saber . ...Contudo, a credulidade, a aversão à dúvida, a temeridade no responder, o vangloriar-se com o saber , a timidez no contradizer, o agir por interesse, a preguiça nas investigações pessoais, o fetichismo verbal, o deter-se em conhecimentos parciais: isto e coisas semelhantes impediram um casamento feliz do entendimento humano com a natureza das coisas e o acasalaram, em vez disso, a conceitos vãos e experimentos erráticos; o fruto e a posteridade de tão gloriosa união pode-se facilmente imaginar. ..Portanto, a superioridade do homem está no saber, disso não há dúvida. Nele muitas coisas estão guardadas que os reis, com todos os seus tesouros, não podem comprar, sobre as quais sua vontade não impera, das quais seus espias e informantes nenhuma notícia trazem, e que provêm de países que seus navegantes e descobridores não podem alcançar".

Dialética do Esclarecimento, T. Adorno e Max Horkheimer.

Pois é, maluco, eu tento expandir os limites e sair da zona de conforto das tiuria crítica, mas que q eu vo fazer se os véio é que dão a moral...
heheheheh...

Pilha acadêmica, tá ligado...

Entrei nas pilha acadêmica do espírito científico e obstáculo primeiro, tá ligado mano... mando um Bachelard aí pro'cês lê. Lê aí mano! Lê mano!

"O padre Louis Castel dizia com acerto: ...Um homem que raciocina, que faz uma demonstração, trata-me como um homem; raciocino junto com ele; deixa-me liberdade de julgar e, se me força, é através da minha própria razão. Mas aquele que grita "é um fato" considera-me como um escravo.

Contra a adesão ao "fato" primitivo, a psicanálise do conhecimento objetivo é especialmente difícil. Parece que nenhuma experiência nova, nenhuma crítica pode dissolver certas afirmações primeiras. No máximo, as experiências primeiras podem ser retificadas e explicitadas por novas experiências. Como se a observação primeira pudesse fornecer algo além de uma oportunidade de pesquisa!"

Gaston Bachelard - A formação do espírito científico.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Raytracing 56%

Enquanto as tarefas alienadas do cotidiano da prática espetacular da arquitetura continuam seu curso, nos permitimos uma perambulação mais teorizante no maciço, porém leve "Uma Nova Agenda para a Arquitetura" (ou aqui no Google Books). Organizado por Kate NESBITT e contando com uma seleção dos principais artigos do após-o-moderno, o livro serve como uma ampla e breve passagem pelos escritos sobre arquitetura da segunda metade do séc. XX e início do XXI. Resolvi selecionar apenas um, que transcrevo aqui na esperança de, de certo modo, fazer dialogar os dois aspectos principais desse blog: uma crítica materialista-dialógica da realidade e o metier da arquitetura, urbanismo e planejamento.


AGREST, Diana e GANDELSONAS, Mario:

Semiótica e Arquitetura: Consumo ideológico ou trabalho teórico
(parte um de dois)

De maneira geral, as teorias da arquitetura e do design tendem a perpetuar a estrutura básica da sociedade ocidental e ao mesmo tempo manter o design como uma operação legítima dentro da ordem estabelecida. Os autores questionam esse papel adaptativo da teoria da arquitetura analisando a incorporação da semiótica como um "bloqueio teórico". Afirmam que a teoria somente poderá ser considerada como uma produção de conhecimento se houver uma completa transformação de sua base ideológica.

Nos últimos vinte anos, houve uma extraordinária intensificação da produção de "teoria" da arquitetura e do design, que destacam o papel especial da teoria arquitetônica que se desenvolveu continuadamente ao longo de cinco séculos.A Função das "teorias", hoje como antes, tem sido de adaptar a arquitetura às necessidades das formações sociais ocidentais(1), servindo de elo de ligação entre a estrutura global da sociedade e sua arquitetura. (2) Dessa maneira, a arquitetura tem se modificado para responder à mudança das demandas sociais, incorporando-se à sociedade mediante operações "teóricas". As mudanças correspondentes introduzidas pela "teoria" na prática arquitetônica atuam no sentido de perpetuar a estrutura básica da sociedade e, ao mesmo tempo, de manter a própria arquitetura como sua instituição dentro das formações sociais ocidentais. (3)

Em um artigo anterior(4), definimos o processo de produção do conhecimento como um projeto teórico que não visa nem à adaptação da arquitetura às "necessidades" das formações sociais nem à manutenção da instituição como a conhecemos. Nesse ponto específico, já nos referimos à teoria em sentido estrito como oposta à "teoria" adaptativa, que chamamos de ideologia.

A ideologia pode ser definida como um conjunto de represwentações e crenças – religiosas, morais, políticas, estéticas – a respeito da natureza, da sociedade, da vida e das atividades dos homens sobre a natureza e a sociedade. A ideologia tem a função social de manter a estrutura global da sociedade induzindo os indivíduos a aceitar em suas consciências o lugar e o papel que essa estrutura lhes designa. Ao mesmo tempo, a ideologia atua como um obstáculo ao verdadeiro conhecimento, impedindo a constituição da teoria e seu desenvolvimento.

A função da ideologia não é produzir conhecimento, mas opor-lhe obstáculos. De certo modo, a ideologia alude à realidade, mas somente oferece dela uma ilusão(5). A soma de todo o "conhecimento" arquitetônico ocidental, das insituições do senso comum às complexas "teorias" e histórias da arquitetura, deve ser vista mais como ideologia do que como teoria. Essa ideologia já proclamou satisfazer as necessidades práticas da sociedade por meio da organização e controle do ambiente construído. Para nós, no entanto, a função subjacente dessa ideologia é mais pragmática, a de simultaneamente satisfazer e preservar a estrutura global da sociedade nas formações sociais ocidentais. Ela contribui para a perpetuação do modo capitalista de produção, bem como para a prática arquitetônica como parte dele. Assim, mesmo que a ideologia proporcione um conhecimento do mundo, é um conhecimento determinado, limitado, deurpado por essa função predominante.

Pensamos que há necessidade de uma teoria, mas que ela seja claramente diferenciada da "teoria" adaptativa ou do que estamos chamendo aqui de ideologia arquitetônica. Nesses termos, a teoria da arquitetura é o processo de produção de conhecimento que toma por base uma relação dialética com a ideologia arquitetetônica; ou seja, a teoria se desenvolve a partir da ideologia e ao mesmo tempo se coloca em posição radical a ela. É essa relação dialética que distingue e separa a teoria de ideologia.

Em oposição à ideologia, propomos uma teoria da arquitetura, necessariamente fora da ideologia. Essa teoria descreve e explica as relações entre a sociedade e os ambientes construídos de diferentes culturas e modos de produção(6). O trabalho teórico não tem como matéria prima nenhuma coisa concreta ou real, mas crenças, noções e conceitos sobre essas coisas. As noções são transormadas por meio da aplicação de determinadas ferramentas conceituais, e o produto é o conhecimento das coisas(7). A ideologia arquitetônica, como parte integrante de uma cultura e de uma sociedade burguesas, supre parte da matéria-prima sobre a qual devem atuar as ferramentas conceituais.

As relações entre teoria e ideologia podem ser caracterizadas como uma luta permanente, na qual a ideologia defende um tipo de conhecimento cuja finalidade principal é mais a conservação dos sistemas sociais existentes e de suas instituições do que a explicação da realidade. A história contém muitos exemplos dessa relação. A Igreja [católica] apoiou durante séculos a teoria ptolemaica do universo, que corroborava os textos bíblicos, contra outros modelos que poderiam explicar com mais exatidão a mesma realidade. A teoria coperniciana, ao contrário, foi o resultado de uma transformação conceitual dentro da ideologia. Copérnico destruiu literalmente o sistema geocêntrico de Ptolomeu e desprendeu sua teoria desta ideologia "projetando a terra nos céus"(8). A condenação de Copérnico pela Igreja e a tentativa de cancelar um novo conceito do universo no qual o homem estava mais no centro do mundo e onde o cosmos não se organizava mais em torno dele, mostr um outro aspecto dessa luta. A ideologia teórica, que originalmente se opôs a concepção cosmológica coperniciana, acabou por absorvê-la para reacomodar a estrutura teórica. Cabe distinguir duas etapas nessa relação dialética entre teoria e ideologia: a primeira é a de transformação produtiva, quando a ideologia é inicialmente transformada para prover uma base teórica ; a segunda é a da reprodução metodológica, quando a teoria é elaborada como entidade separada da ideologia. Os estudos de Copérnico correspondem à primeira etapa, em que o trabalho teórico consiste essencialmente na subversão de uma determinada ideologia.

A arquitetura ainda está à espera de um Copérnico para iniciar a primeira etapa da explicação teórica. A verdade é que apenas recentemente começamos a nos dar conta da necessidade de analisar as relações entre teoria e ideologia.

Diversas ideologias arquitetônicas têm aparecido de modo mais ou menos sistemático, como evidencia o uso ambíguo da denominação " teoria". Essa ambiguidade tem se acentuado recentemente em teses pseudoteóricas, que usam modelos provenientes de diferentes campos do conhecimento, como a matemática, a lógica, o behaviorismo ou a filosofia. Quando aplicados à arquitetura, esses modelos introduzem uma ordem superficial, mas deixam intacta a estrutura ideológica subjacente. A invtrodução de modelos tirados d outros campos do conhecimento deve ser vista como consumo ideológico e como um modismo temporário no plano da técnica (9). Mas o consumo de teorias que podem ser pensadas em sí como instrumento para o desenvolvimento da teoria sobre a arquitetura atua como uma forma especial de obstáculo ideológico, que denominamos bloqueio teórico.

Muitas teorias que se apresentam como teorias numa acepção estrita são, na realidade, justo o oposto. Elas funcionam como obstáculos à produção teórica. Mas muitas das " teorias semióticas da arquitetura" produzidas recentemente constribuem tão-somente para o consumo de uma teoria da semiótica, a qual, a nosso ver, poderia propiciar uma série de instrumentos úteis para a produção de conhecimento sobre a arquitetura. Essas teorias são a essência de um bloqueio teórico.


[FIM DA PARTE 1]

Notas:

1. Formação social (formatio sociale) é um conceito marxista que designa a " sociedade". " A formação social é a totalidade complexa concreta que compreende as práticas econômica, política e ideológica, num lugar e num estágio determinados de desenvolvimento." Louis Althusser, For Marx. Nova Iorque: First Vintage Books, 1970, p, 251.
2. Há outras funções das teorias da arquitetura e do design que não mencionamos neste artigo, isto é, a teoria cuja função é estabelecer determinado ordenamento das operações de projeto dentro da prática arquitetônica.
3. As transformações ocorridas na sociedade introduzem reformas que permitem a sobrevivência do sistema vigente. Contudo, essas mudanças nunca são verdadeiras - pois as relações estruturais permanecem intocadas - , mas meras transformações daquele sistema. Por exemplo, o desenvolvimento do modo de produção capitalista em diferentes estágios - mercantilismo, capitalismo industrial, imperialismo, etc - baseou-se numa série de transformações realizadas em diferentes domínios, mas que não modificaram de forma alguma a estrutura de classes.
4. Diana Agrest e Mario Gandelsonas, "arquitectura/Arquitectura", Materia, Cuadernos de Trabajo. Buenos Aires, 1972.
5. Para sermos mais exatos, deveríamos falar em ideologias no plural, ainda que, neste artigo, estehamos tratando de uma ideologia específica, a ideologia burguesa.
6. Esta é uma definição parcial do objeto específico deste artigo: a relação entre teoria e ideologia arquitetônica. Esse caráter parcial decorre do fato de que o importante problema teórico da relação entre a prática arquitetônica e o inconsciente (Freud) não foi considerado neste artigo.
7. Procuramos seguir aqui o capítulo "Metodologia", em Karl Marx, Introdução a Crítica da Economia Política, recentemente analisado por Althusser, em Pour Marx. Essas duas obras são uma base fundamental para qualquer abordagem materialista dialética da teoria em contraste com as formas de concepção idealista da teoria. Ver a classificação althusseriana da teoria idealista como "empirismo", e "formalismo". Usamos este termo, no entanto, com o objetivo de contrastá-lo com o que se deve considerar hoje simplesmente como concepção ocidental da teoria e para enfatizar seu caráter provisório como etapa atual no processo de desenvolvimento de uma teoria mais geral das ideologias.
8. Alexander Koyre, La Révolution Astronomique. Paris: Hermann, 1961, p. 16.
9. Diana Agrest, Epistemological Remarks on Urban Planning Models, palestra no IAUS, Nova Iorque, 1972.


terça-feira, 19 de maio de 2009

futurismus

De longe vem uma identidade marcada na arquitetura: a da renovação heróica da cidade - principalmente no sentido que Debord dá ao Mito do Herói. Desde os "visonários" do séc. XVIII como Ledoux, Boullé e Lequeu até as auto-referentes estruturas da Bigness de Koolhaas/OMA e dos exageros do B.I.G se busca a transfiguração do cotidiano no épico e essencialmente em algo melhor do que é atravé de uma larga dose de grandiosidade. Como no espelho de Alice, se invertem as figuras e se ideologiza a retórica de maneira a justificar um mundo melhor no futuro, uma revolução salvadora, uma promessa para a próxima geração.
Nesta tendência, temos nossos modernos sessentistas - com destaque especial para o pritzkerprizewinner Paulo Mendes da Rocha - e sua discussão sobre o progresso produtivo como o possível caminho para a ampla emancipação da sociedade. Não me alongo nesse assunto, ao invés, aponto para as resenhas do F.Drago aqui no arqforum sobre o contraponto: nosso suicida (do metier) predileto, Sérgio Ferro (resenhas 1, 2, 3 e 4).
O que acho interessante na posição criticada por S. Ferro - assim como extremamente pertinente nos diálogos atuais - é da recorrência das crenças no futuro como solução para todos os problemas que temos no presente, especialmente através do desenvolvimento material ou tecnológico. Isso, ao invés de apontar para o crescimento sustentado das iniciativas, tem muito mais apontado para os ready-mades as soluções totais, as super-construções e realização que contenham, dentro de sí e uma vez completas, todos os elementos necessários.
Essa ideologia, com forte sotaque positivista, mesmo quando dita contemporaneamente, se mostra avessa a qualquer teoria mais firme, seja através da crítica arquitetônica ou pela própria filosofia. Em outras palavras, coloca para o futuro a prova irrefutável - pois ainda não aconteceu - de sua validade, ideologizando e tornando difuso o discurso de maneira muito mais política do que teórica. Como comentei no post sobre Estruturas, Variação, Conexões e Liberdades, estas soluções completas jamais alcançam a real totalidade dos fatos. No máximo conseguem solapar as sensibilidades da realidade (e dos sujeitos portanto) num todo inclusivo e totalitário, anti-libertário por mais amplo e contínuo que seja.
Ilustrando isso, lanço mão de algumas estruturas marcantes na história da "arquitetura visionária", desde o século XVIII ao nosso XXI. Antes, porém, uma citação sobre o livro Cidade Genérica do Koolhaas, retirada e traduzida livremente a partir do artigo sobre Koolhaas na Wikipedia "[AS] Pessoas podem habitar qualquer coisa. Assim como podem ser miseráveis em qualquer coisa e extáticas por qualquer coisa. Mais e mais penso que a arquitetura nada tem a ver com isso. Claro, isso é tanto libertador quanto alarmante. No entanto, a cidade genérica, a condição urbana geral, acontece em todo lugar e apenas o fato de que ocorre em quantidades enormes deve significar que é habitável. A arquitetura não pode fazer qualquer coisa que a cultura não faça. Nós todos reclamamos que somos confrontados por ambientes urbanos que são completamente parecidos. Dizemos que queremos criar beleza, identidade, qualidade, singularidade. No entanto, e talvez em verdade, estas cidades que temos são desejadas. Talvez sua própria falta de caráter proveja o melhor contexto para se viver."
Vou propositadamente deixar no ar esta contradição sem fazer qualquer juízo ainda, de modo que em posts posteriores se possa discutir as implicações reais e potenciais de cada postura, da cidade-genérica, da cidade-controle [do estado?, do mercado?], da cidade-enquanto-processo, etc.

Vamos ao que interessa:
Claude-Nicholas Ledoux - a utopia da monarquia francesa do séc. XVIII.
A necessidade de ordem clara, que vai desde a organização das referências simbólicas a geometria, simetria e clareza das formas - inspirada no classicismo, mas grandiosa e não-contextualista - mostram uma fortíssima marca do iluminismo, antevendo as idéias de Comte do positivismo.
As salinas em Arc-et-Senans (1774-1779)














As salinas em Arc-et-Senans (1774-1779)















Étienne-Louis Boullée - racionalidade geométrica de inspiração neoclássica:

Deuxieme projet pour la Bibliotheque du Roi (1785)














Cénotaphe a Newton (1784)













Antonio Sant'Elia - futurista moderno pelo progresso e libertação
Modernismo herórico de primeira linha, Sant'Elia marca uma tentativa de quebra com o passado neo-clássico típica do início do século XX e propõe, como veremos em Metropolis de F. Lang, uma grandiosa cidade, onde a geometria mais pura e precisa do cálculo, fruto da racionalidade e da ciência sobre o mundo se tornarão belas e magníficas.

Studio per Centrale Elettrica (1914)





















Studio per Centrale Elettrica (1914)





















Constant e New Babylon

Um dos preferidos da casa, buscou expressar a autonomia da vida atingida pelo Homo Ludens na forma de cidades contínuas, mutantes e perfeitas para a realização do jogo e das situações em todos os momentos.

Symbolische voorstelling van New Babylon (1969)


















vista de um setor (1959)













Archigram - plugues, cidades ambulantes
As esquisitices maravilhosas de Peter Cook e sua turma ainda nos deixam de queixos caídos. A proposta arquitetônica, no entanto, muito se assemelha ao que já foi lançado por Constant e por outros "totalitários": a solução única, mesmo que neste caso plural e um tanto caótica.

Plug-in City (1964)


















Plug-in City (1964)
















Koolhaas - uma visão total do caos
Com uma retórica maravilhosamente acompanhada de imagens em centenas de livros, revistas, sites, entrevistas e palestras o mais midiático dos arquitetos define, em seu livro S, M, L, XL um verdadeiro paradigma da arquitetura grandiosa e completa-em-sí-mesma. Partindo de exemplos reais, eventos absolutamente cotidianos e medíocres até mesmo, Koolhaas chega na definição desta autonomização da realidade dos shopping-centers, aeroportos, terminais de passageiros, museus, etc quando atingem uma determinada escalaAo serem enormes, deixam de se comunicar dialogicamente com o seu contexto para definir, unívocamente, qual será o contexto, que forma se dará ao conjunto. Colocada de outra forma, são o contexto.

casa em Bordeaux (1998)













esquema estrutural da Biblioteca Pública de Seattle (2004)













BIG - uma iconografia construída em proporções assombrosas
Propondo não somente a construção de elementos totais, mas ainda uma identificação clara do status de símbolo/marco para sua arquitetura, o Bjarke Ingels Group parte da visão bastante prolixa e libertina, mesmo que totalitária, de Koolhaas, onde Ingels trabalhou durante anos. Mais que uma opção estética, se trata da estratégia de encarar o mundo como a construir ou por fazer, o que, como diz o holandês Koolhaas é terrivelmente libertador, ou libera um terror de possibilidades de controle, domínio e mesmo ficção de realidade. É quase como se interpretasse os ensinamentos da realidade como processo do pós-modernismo e os virasse de ponta-cabeça para dizer: "já que existem múltiplas visões de realidade, vou transformar a realidade tal qual a minha visão dela".

Torres Lego em Copenhagem (2007)















Torres Walter em Praga (2009)

















Com isso, encerro, mas permito uma deixa para um post futuro sobre estas mega-estruturas e suas possibilidades enquanto utopias, enquanto realidades-fabricadas e principalmente, em relação a ainda presente importância do desenho na realização de uma arquitetura enquanto processo.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

[ - ] SINAL DE MENOS


Depois de ha muito desaparecido, começando novos projetos pra vida, volto a este humilde bloguinho para comunicar-lhes que nasceu a mais nova rebenta antimercadoria: a
Revista Sinal de Menos. Dêem uma espiada. Lá está a ultima resenha da série "No rastro de Sérgio Ferro". Com isto, ganhamos mais uma ferramenta de articulação, debate e compartilhamento, bem menos enrijecida do que as revistas "alternativas de esquerda", em nossas nossas redes de negação do capitalismo e na criação de vislumbres e flashes de uma outra história. Uma boa notícia para quem "corre" carreira acadêmica: vale mandar trabalhos que serão selecionados e publicados segundo critérios da revista (que vale pontos no currículo, sim!). Fica o convite! [ - ]!

Editorial da primeira edição:

Que o mundo atual apareça cada vez menos sob os trajes da positividade e do otimismo satisfeitos, parece haver poucas dúvidas. Tornou-se um fato banal a grande mídia relatar, em pânico aberto ou simulado, a explosão de crises sociais e ambientais de grande magnitude. O espectro da catástrofe ronda o planeta, abafado cotidianamente pela velha política de entretenimento de massas e administração das crises, em meio ao fracasso e ao terror social generalizados. Quanto mais o capitalismo se afirma vencedor, como a única alternativa de produção e vida, mais o desastre social e ambiental, a um certo prazo difícil de julgar, parece-nos inevitável.


Se o travo amargo do negativo se projeta sobre o todo, para nós não se trata de atenuá-lo, mas sim de aguçá-lo, com a maior contundência possível. Pois as crises que se desencadeiam não são garantia alguma de superação social, tornando-se antes motivo para reflexão sobre as formas de converter tal negatividade cega em algo realmente negativo e superador. Uma revista que nasce sob o signo da recusa – da potência do não, em vistas à criação social do novo – necessariamente se esforça por determinar e especificar aquilo que pretende negar. Não se trata de forma alguma de niilismo, reação desparafusada, desespero existencial, irracionalismo – formas abstratas de recusa pela recusa ou voluntarismo cego, feitos de um ponto de vista meramente subjetivo, individual ou grupal. Inserimo-nos, assim, no esforço coletivo de elaboração de uma crítica consequente das mediações sociais que nos afetam e nos dominam, em seus vários níveis e escalas. Alinhamo-nos à tradição de pensar e organizar uma formação cultural crítica, que necessariamente passe pela autorreflexão individual, sem a qual, queremos crer, não há nenhuma práxis realmente emancipatória.

Trata-se de mirar e atacar as estruturas fundamentais da sociedade capitalista, bem como seus momentos constitutivos e reprodutivos em suas particularidades concretas. Sinal de Menos pretende, pois, dar voz à perspectiva mediadora entre os problemas gerais e particulares, movendo-se continuamente das questões econômico-sociais mais urgentes aos movimentos de oposição, dos processos de urbanização capitalista às formas políticas e estatais, da formação social e cultural às formas de sujeito e subjetivação, das elaborações teóricas num plano mais geral à literatura e às artes. Se é correto afirmar que vemos o mundo sempre de um certo ponto de vista – no caso, da periferia do capitalismo, como seres sujeitos à loucura da valorização do capital –, talvez tenhamos, por assim dizer, ao menos alguma "vantagem" nesse ponto: pois não será aqui o lugar onde a crise mundial se manifesta em toda sua força, como revelação cabal e mesmo adiantada da fratura exposta da socialização capitalista global ?

Nessa linha há bons antecedentes. No Brasil, pode-se dizer que a grande descoberta do país iniciou-se menos com as ciências sociais que com a literatura: depois de uma lenta acumulação literária, Machado de Assis despontou, em plataforma periférica, como um grande farol, ainda hoje fazendo-nos ver as faces tenebrosas de uma sociedade em que as heranças coloniais da dominação direta – escravismo, patriarcalismo, clientelismo – se entrelaçam às estruturas de dominação capitalista mais modernas. Aqui, as regulações coisificadas do capital se combinam ao mandonismo e ao capricho de uma elite cínico-esclarecida, fermentando uma cultura envenenada, de afirmação e sobrevivência selvagens, que hoje trespassa todos os estratos sociais, reproduzindo uma sociedade estilhaçada e só muito precariamente unificada – nem por isso menos moderna e capitalista, muito pelo contrário. Nosso complexo particular de problemas dá sinais ao mundo, na crise em que há muito estamos, de que o automatismo cego e destrutivo do sistema tende a ser suportado – não sem contradições – por formas subjetivas distintas do sujeito burguês europeu clássico, que hoje vão se generalizando pelo mundo todo. A grande literatura, nesse caso, longe de ser mera ideologia, detinha chaves de alguns de nossos enigmas sociais contemporâneos.

A Revista aposta então suas fichas no pensamento de que a totalidade deve se realizar dialeticamente em cada problema particular enfocado, sem privilégio de algum campo de análise. Da mesma maneira, se hoje vem se falando em "brasilianização do mundo", em geral de forma apologética, provavelmente estaremos num posto relevante para a observação crítica, adrede preparado por nossa tradição. Nesse sentido da formação, a revista segue sua linha, traçando com rigor e também certo jogo e desvio para com as regras oficiais do mundo universitário, degradado pelo mercado e pela cultura do favor, a figura composta pelos enigmas sociais. Um outro mestre em tais enigmas, Drummond, em seu "não-estar-estando" na vida danificada, concluía assim seu "Poema-orelha":

"e a poesia mais rica, é um sinal de menos."

Tornou-se um fato banal a grande mídia relatar, em pânico aberto ou simulado, a explosão de crises sociais e ambientais de grande magnitude. O espectro da catástrofe ronda o planeta, abafado cotidianamente pela velha política de entretenimento de massas e administração das crises, em meio ao fracasso e ao terror social generalizados. Quanto mais o capitalismo se afirma vencedor, como a única alternativa de produção e vida, mais o desastre social e ambiental, a um certo prazo difícil de julgar, parece-nos inevitável.

http://www.sinaldemenos.org/index.php?journal=revista&page=article&op=view&path[]=1&path[]=39

quarta-feira, 18 de março de 2009

Leituras e Comentários sobre a Assistência Técnica a Moradia Econômica

Vou me permitir fazer uma postagem mais informal pra aproveitar um email que enviei e guardá-lo por aqui.
Sobre alguma pesquisa que fiz para tentar me inteirar do processo que levou a criação da lei 11.888/2008 que determina a destinação de recursos financeiros para a Assistência Técnica para a Moradia Econômica, vou fazer um relato do que entendi até aqui começando por uma enumeração brevíssima dos principais fatos deste processo:
  1. A lei começa com Clóvis Ilgenfritz no Sindicato dos Arquitetos do RS;
  2. Como era uma das primeiras bandeiras da reforma urbana, está incluída no Fórum de Reforma Urbana desde a constintuinte;
  3. Vem junto na formulação do Estatuto das Cidades e entre nele lá no Artigo 4, inciso IV, letra "r" - assistência técnica como direito fundamental;
  4. É levada para o congresso na forma do PL 6223/2002 pelo Clovis (PT-RS), que recebe emendas e vira o PL 889/2003 do Zezeu Ribeiro (PT-BA);
  5. É discutida em 2005 com a realização de 16 seminários regionais e um seminário nacional pela Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA);
  6. Aprovado pelo congresso e sancionada pelo Lula na forma da lei 11.888/2008.
Nesse panorama vou destacar o substitutivo do Zezeu que inclui a participação dos engenheiros na lei (até entao era de arquitetura somente) e sobre alguns comentários do Clóvis sobre o processo de evolução da lei, na época do substitutivo, que vi nos fóruns online do Acampamento Intercontinental da Juventude de 2005, unma mensagem enviada pelo Fernandao a pedido do Albano, imagino.
Buenas. a inclusao dos Engs. vem, claro, por questoes econômicas mas tbm por questões práticas: projetos de saneamento e tal precisam dos caras. O problema, conforma ressalta o Clovis na carta, é que não ha diferenciacao entre o q eles fazem e o q os Arqs. fazem. Entao eles podem fazer arquitetura, mas nos nao podemos fazer saneamento, capicce? Vai a consideração do Clovis:

" Aqui, exatamente, reside uma das minhas preocupações com relação ao Substitutivo do Deputado Zezéu, quando precisamos nos reportar ao conceito inerente à *arquitetura* e ao *trabalho de
arquitetura* que é o de *projetar e construir o espaço de viver das pessoas*, ou num conceito mais largo amplo, o profissional que trabalha o *habitat* humano.
Se isto é verdadeiro, mesmo que colocado aqui de forma simplista, é verdadeiro também que os seviços de arquitetura e urbanismo sejam exercidos por profissionais arquitetos ou, se quiserem, por *profissionais formados e habilitados para os serviços de arquitetura*."


Outra coisa, que é levantada na carta é a possibilidade de atuação de profissional autônomo - ferida pelo substitutivo quando inclui os profissionais do serviço público,que já são contemplados por outros programas, o que mistura conceitualmente a ATME numa grande e sem foco solução para financiar a arquitetura para as baixas rendas. EM outras palavras, desvia o foco da atenção por profissionais autonomos para a utilização dos recursos para reformar ou reformçar os orçamentos dos deptos. e secretarias de habitação públicas. Como exemplo, é o caso de Pelotas, que estabeleceu, com a Lei 4089, um serviço público de plantas prontas pra serem repetidas sob demanada. Pra mim, um contra-senso e um absurdo completo. Limitam inclusive a Habitação de Interesse Social a 40m2 e dizem que se ela puder ser expandida para além de 60m2está excluída do programa! Seguem as palavras do Clóvis em 2005:

" O segundo ponto de natureza conceitual que estou levantando, neste momento, e que precisa sermelhor analizado no Projeto de Lei ou no Programa propriamente dito, é que os *Serviços de Arquitetura devem ser exercidos por um profissional para um beneficiário* ou por vários profissionais para vários beneficiários. Ou seja, é um trabalho *individualizado*, personificado e, de preferência, *exercido por profissional autônomo*, preparado, assim como é o caso do médico para atender um paciente, e não por uma entidade, mesmo que seja "sem fins lucrativos".
Em outras palavras, o profissional se cadastra, se habilita a atender o Programa. A figura da *pessoa jurídica *ou *funcionário público* como está proposto no Substitutivo, desfigura o Programa que deve ser dirigido para *profissionais indicados *às Prefeituras e por conseqüência aos beneficiários."


Fora esta questão de quem fará os projetos e como, gostaria de comentar comentar um dos artigos da lei que fala sobre o agente de seleção dos beneficiários, no art. 3° diz assim:

" Art. 3o A garantia do direito previsto no art. 2o desta Lei deve ser efetivada mediante o apoio financeiro da União aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios para a execução de serviços permanentes e gratuitos de assistência técnica nas áreas de arquitetura, urbanismo e engenharia."

Depois, no treco n°4:

" § 4o A seleção dos beneficiários finais dos serviços de assistência técnica e o atendimento direto a eles devem ocorrer por meio de sistemas de atendimento implantados por órgãos colegiados municipais com composição paritária entre representantes do poder público e da sociedade civil."

Ou seja, mais um conselho ou mais poderes pro conselho que existe!

No caso de Porto Alegre, temos uma disputa entre o COMATHAB - Conselho Municipal de Acesso a Terra e Habitação (o regimento eleitoral dele pode ser acessado no site do DEMHAB) e o CGFMD, que será (quando criado) o Conselho Gestor do Fundo Municipal de Desenvolvimento. Esse fundo já existe e é aquele que recebe os recursos da venda de solo criado. O que mudará é que terá um Conselho Gestor agora, e sua formulação é a seguinte (algumas emendas mudaram o nome pra Fundo Municipal de HIS que absorveria o FMD):

" Art . 4° O Conselho Gestor do FMD será composto de forma paritária por 09 (nove) conselheiros representantes do Poder Executivo Municipal e da sociedade civil, abaixo descritos:
I -01 (um) representante do Departamento Municipal de Habitação- DEMHAB;
II - 01 (um) representante do Gabinete de Programação orçamentária do Município de Porto Alegre -GPO;
II I - 01 (um) representante da Secretaria do Planejamento Municipal -SPM;
IV - 01 (um) representante do Conselho Regional de. Engenharia e Arquitetura do Rio Grande do Sul-
CREA/RS;
V - 01 (um) representante do Sindicato das Indústrias da Construção Civil no Rio Grande do Sul -
SINDUSCON/RS;
VI - 01 (um) representante da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do Rio Grande do Sul -
OAB/RS;
VII - 01 (um) representante do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher;
VllI - 01 (um) representante da União de Associação de Moradores de Porto Alegre - UAMPA;
IX - 01 (um) representante do Conselho do Orçamento Participativo do Município de Porto Alegre.
§ 1° A Presidência do Conselho-Gestor do FMD será e xercida pelo Diretor-Geral do Departamento Municipal de Habitação -DEMHAB.
§ 2° O presidente do Conselho-Gestor do FMD exercer á o voto de qualidade. ."


Ele também se propôs a acabar com o COMATHAB, substituindo a representação direta popular pelas 6 entidades e classe e populares acima. Só que no final do ano recebeu várias emendas, pego a última que modificava principalmente o artigo 4°:

" Art. 4° O Conselho Gestor do FMHIS será composto de forma paritária por 09 (nove) conselheiros representantes integrantes do COMATHAB, conforme segue:

I - 03 (três) representantes governamentais indicados;
II - 03 (três) representantes de entidades de classe; e
III - 03 (três) representantes do movimento popular comunitário

§ 1°
Os membros do Conselho Gestor do FMHIS, integrantes das entidades de classe, com representação da área habitacional , e das entidades do movimento popular comunitário serão indicados pelas Câmaras do COMATHAB, dentre seus pares, cabendo ao Executivo Municipal indicar os seus representantes integrantes do referido Conselho."

Caso estas emendas sejam aprovadas a lei fica realmente viável e mais justa, pois devolve o poder de indicação pro COMATHAB que historicamente está ligado a reforma urbana e é muito marcado pela presença das cooperativas habitacionais. O constraste maior fica em relação a redação original que oligopolizava o poder nas mãos da tecnocracia pública e privada, um completo revés dos objetivos do FNHIS e da reforma urbana como um todo.
Sei que estes comentários estão longe de ser um retrato fiel do processo e que devem carregar imensas incorreções, mas espero que sirva para que alguns dos arquitetos que estejam por fora desta agenda tão importante para o país possam começar a dialogar mais claramente com ele e assumir um compromisso de gerir o processo de regulamentação que se aproxima.Além disso, essa discussão é pra apontar caminhos possíveis de atuação pra nós ou pra qualquer arquiteto a bem dizer.
Abraços!

domingo, 1 de março de 2009

Alguns retalhos críticos sobre Harvey e Reforma Urbana no FSM 2009


Lendo um texto de David Harvey, encorajei-me em escrever algo sobre. O texto a que me refiro é a palestra de abertura da tenda de Reforma Urbana de 29 de Janeiro de 2009, no Fórum Social Mundial em Belém do Pará. Harvey, em sua palestra, encontra um tom de certa forma conciliatório entre as esquerdas, fato bastante útil num encontro como este. Porém não queremos reproduzir o que Harvey já disse, tão pouco temos compromisso com qualquer projeto pré-formatado de sociedade, portanto nos demos à liberdade de explorar. Reproduzo, aqui, alguns retalhos críticos.


***


Quando Harvey fala do “direito à cidade”, assunto já tratado (e maltratado, diga-se de passagem) por muitos autores, coloca em termos corretos, do nosso ponto de vista: Eu tenho trabalhado já há algum tempo com a idéia de um direito à cidade. (...). O direito à cidade não é simplesmente o direito ao que já existe na cidade, mas o direito de transformar a cidade em algo radicalmente diferente. Quando eu olho para a história, vejo que as cidades foram regidas pelo capital, mais que pelas pessoas. Assim, nessa luta pelo direito à cidade haverá também uma luta contra o capital.


Porém, no decorrer do texto, tentando ressaltar a importância desta luta, Harvey parece deixar de lado algumas coisas importantes que já não podemos deixar de tratar em qualquer visão que se pretenda global. A primeira é a Reforma Agrária, luta complementar da Reforma Urbana, que tantos frutos na luta contra o capital tem rendido na América Latina. Uma questão de como se produz e distribui os alimentos, em primeiro nível. A segunda é a questão ambiental, que de certa forma reúne as duas lutas (urbana e agrária) numa pauta atualizada e dá o correto caráter de urgência. A questão ambiental serve tanto de aglutinadora de movimentos quanto de instrumento para esta aglutinação de forças e sua intersecção parece uma das poucas saídas para tratarmos uma ampla gama de questões de sobrevivência. Há, porém, de se ter cuidado com termos como “ecosocialismo” de Michel Lowy, é como dizer bioarquitetura, por exemplo. O socialismo é um outro tipo de relação social que vê o ser humano como parte da natureza que não precisa lutar pela sobrevivência, contra a natureza, mas sim a favor desta, trabalhando a fartura que é possível construir a partir do manejo adequado e racional de recursos existentes e esgotáveis. Assim como a “bioarquitetura” é a mesma boa e velha arquitetura que trabalha nestes mesmos parâmetros de imanência, é mais atual, mas ainda é arquitetura, arquitetura do ambiente.


Assim, tanto no “socialismo”, palavra gasta e classificadora de atitudes perante o mundo, quanto na arquitetura, em nome da qual se fazem as mais irracionais e gigantescas transformações de matéria, existe um tipo de relação social humana (, ou moral, ou de pensar o mundo, como queiram), que é governada pelo valor (valor de troca e valor de uso – que já pressupõe o primeiro). A forma mais trivial de manifestação deste fato, e também a mais enigmática, é que, nas sociedades contemporâneas, a maioria dos bens materiais e simbólicos circulam sob forma de mercadoria. A mercadoria é, hoje, o modo sob a qual se dá a mais ampla gama de socializações: do estado às instituições filantrópicas, da arte aos espaços urbanos, das leis aos juízes, da escola à filosofia. Assim, um dos maiores méritos de Karl Marx não foi, como pensam os marxistas, ter posto a luta de classes como o motor da história, mas ter desvendado esta forma valor e sua decorrente forma de socialização, a mercadoria. Segundo Marx, o capitalismo necessita de crises pra se regular quando o estado, seu instrumento regulatório consciente, não funciona adequadamente. Harvey expõe da seguinte forma:


“... a forma com que o capital opera nas cidades é uma de suas fraquezas. Assim, eu acredito que, dessa vez, a luta pelo direito à cidade está no centro da luta contra o capital. Nós estamos vivendo agora, como todos sabem, uma crise financeira do capitalismo. Se nós olharmos para a história recente, nós descobriremos que ao longo dos últimos 30 anos houve muitas crises financeiras. Alguém fez os cálculos e disse que desde 1970 houve 378 crises financeiras no mundo. Entre 1945 e 1970 houve apenas 56 crises financeiras. Portanto, o capital tem produzido muitas crises financeiras nos últimos 30 ou 40 anos. E o que é interessante é que muitas dessas crises financeiras têm origem na urbanização. No fim da década de 1980, a economia japonesa quebrou, e quebrou por conta da especulação da propriedade e da terra. Em 1987, nos Estados Unidos, houve uma enorme crise, na qual centenas de bancos foram à falência, e tudo se deveu à especulação sobre a habitação e o desenvolvimento de propriedade imobiliária. Nos anos de 1970 houve uma grande crise mundial nos mercados imobiliários. E eu poderia continuar indefinidamente, dando-lhes exemplos de crises financeiras com origens urbanas. Meu cálculo é que metade das crises financeiras dos últimos 30 anos teve origem na propriedade urbana. As origens dessa crise nos Estados Unidos estão em algo chamado crise das hipotecas sub prime. Mas eu chamo esta crise não de crise das hipotecas sub prime, e sim de crise urbana.”


***


Argumentando com a dificuldade dos capitalistas em encontrar saídas rentáveis para o excedente de capital, o qual investem na compra de ativos, ações, direitos de propriedade, inclusive intelectual, e, é claro, em propriedade imobiliária ao invés de investir na produção de usos concretos, o que geraria mais empregos e daria mais vida útil ao capitalismo, argumenta que (...), desde 1970, cada vez mais dinheiro tem sido destinado a ativos financeiros, e quando a classe capitalista começa a comprar ativos, o valor destes aumenta. Assim eles começam a fazer dinheiro com o crescimento no valor de seus ativos. Com isso, os preços da propriedade imobiliária aumentam mais e mais. E isso não torna uma cidade melhor, e sim a torna mais cara. Assim, cria-se uma situação em que os ricos podem cada vez mais exercer seu domínio sobre a cidade, pois essa é forma que encontram de usar seu excedente. O caso dos diversos empreendimentos que visam atender a demandas como a copa do mundo e a necessidade da classe média imitar os ricos em campos de concentração chamados “condomínios fechados”, por exemplo, não é uma questão de distribuição de trabalho entre arquitetos como tenho ouvido de alguns desavisados. Parece ser, isto sim, mais um passo em direção à crise urbana, à valorização irracional carimbada pelo estado e a crise ambiental das cidades de forma geral, não só de Porto Alegre.


***


Em suma, Harvey nos instrumentaliza com atualíssimos argumentos de luta de classes no meio urbano, relativos a um conceito em construção, o conceito de Reforma Urbana. Se em número de crises, as urbanas parecem importantíssimas, em qualidade, as ambientais parecem mais graves. Portanto caberia um conceito de Reforma Ambiental, uma chave da qual partissem Reforma Agrária e Reforma Urbana numa visão integrada de ser humano e natureza em busca de novas relações sociais e, por conseqüência e causa, de produção. Uma reforma ambiental só poderia fazer o ser humano encontrar-se com seu conceito, livrá-lo do mimetismo de competição e dominação da natureza para começar a integrar-se, manejar recursos com ganhos para todos. Instrumentos já existem, a agroecologia, a permacultura, a agricultura urbana, a bio-construção. Cabe a nós integrar estes conceitos na produção de alimentos, no urbanismo, na arquitetura. Cabe a nós, para mais além de tudo, tornarmo-nos livres e, como disse Slavoj Žižek:


“Hoje, a verdadeira liberdade de pensamento significa liberdade para questionar o consenso democrático-liberal ‘pós-ideológico’ – ou não significa nada.”


Questionar o consenso democrático-liberal, primeiro, porque não é democrático, funciona através de urnas numa escala totalmente imprópria e não legítima; segundo, porque não é liberal, é escravo do valor e da forma mercadoria; terceiro, porque não é pós-ideológico, é completamente ideológico, apenas a ideologia não nos é visível, pois se forma quando agimos cotidianamente reproduzindo o que os donos da maior parte dos bens concretos ou imateriais circulantes ditam de suas salas climatizadas.


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Assim apoiamos o experimentalismo, o método do erro e acerto, de aproximações sucessivas, nosso experimentalismo na arquitetura, nos materiais, nas relações de produção da edificação, nas relações humanas geradas na poiese e na poesia da construção, com a certeza de que a mudança não se dará mais por vias burocráticas, eleições ou “revoluções estatais”. Não se produz autodeterminação a partir de cima, não se cria seres humanos a partir de estruturas piramidais ou de árvore. Como será? Melhor perguntar como vem sendo. Nosso projeto é infinito, local, auto-questionador, se move na velocidade do sonho. Portanto a Reforma Urbana só pode ser um conceito em construção. Construção permanente, aliás.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

No rastro de Sérgio Ferro - Resenha 04


A produção da casa no Brasil (1969)

Texto nascido de anotações de aula na FAUUSP 1968/69. Primeiro esboço de “O canteiro e o desenho”. Foi publicado pelo GFAU em 1972 com o nome de “A casa popular”. O texto foi revisto e rebatizado por Sérgio ferro em 2005.


É neste texto que Sergio Ferro começa um “deslocamento progressivo da perspectiva crítica”, mudando a centralidade de seu objeto de preocupação da moradia para a “economia política da construção”. Valendo-se do método de pesquisa utilizado por Marx e exposto no prefácio de “O Capital”, começa a partir da análise e contextualização da práxis até chegar à “mercadoria”, do particular ao universal, encontrando, no final, a arquitetura em “forma-mercadoria”. Este texto, pela primeira vez, evidencia de forma efetiva o canteiro de obras, parafraseando Roberto Schwartz, como um lugar fora das idéias, um local invisível aos reprodutores do “ideário dominante”, que, por sua vez, movem-se pelas idéias fora do lugar da transformação.


Aqui é abordada de forma especial o problema da moradia no Brasil, tema levado a cabo somente neste texto. Sérgio argumenta que a autoconstrução contribui para a redução de salários do setor, pois abriga a baixíssimo custo à mercadoria força de trabalho, revelando um sistema inclusivo. Assim é possível manter uma baixa taxa de composição orgânica – muita mão de obra e poucos meios de produção, como máquinas, por exemplo. Assim Sérgio acredita que a industrialização do setor poderá ocorrer somente quando questões básicas forem resolvidas, tais como reforma agrária, pleno emprego, melhores salários, moradia, etc., porém nada garante que ocorrerá. O atraso neste setor da economia não deve ser entendido como anomalia, mas como parte coextensiva do próprio desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo.


Este texto contém partes suprimidas de “O canteiro e o desenho”, tais como os títulos A casa popular e A mansão. O ponto de chegada deste texto é o ponto de partida de “O canteiro e o desenho”, ao qual nos dedicaremos mais a fundo na próxima resenha. “A produção da casa no Brasil” merece ser lido com bastante atenção pois contém elementos não passíveis de serem tratados sem omissão em uma resenha.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A volta à realidade


Esta bela imagem do fim de semana no sul da Praia do Silveira na casa do meu amigo Gugo, contrasta com a dura chegada em Porto Alegre. Desculpem o desvio de assunto deste blog, mas estou chocado com a ingenuidade do governo do estado do RS. Uma governadora mandar publicar um pastelão em forma duma carta "pessoal" (o que é estrategicamente óbvio) UTILIZANDO o "nobre" colunista da Zero Hora, Paulo Santana. O que, também, não é de todo mau: dar um uso ao que não serve de nada. Não nos daremos ao trabalho de comentar. Aliás, nosso alvo aqui não são governos quaisquer, mas quando o ataque é pessoal a coisa muda de figura. Esta carta ataca nossa inteligência. Vejam trechos (grifos meus):

"(...). O povo é esse povo que amo, meio caudilha que sou, e a quem pude somar filhos e netos, infelizmente esses que terão que ver os cartazes dantescos de sua vó pregados em cada tapume onde fiquem pessoas paradas esperando ônibus."

"(...).
O grupo de pessoas desafinou, desmanchou, quem sabe pelo tamanho do empreendimento e a dedicação absolutamente total e integral que exigia o projeto. Como você tanto acompanha, o projeto tem cara sim, é bonito, coletivo, construtivo, respeitoso, doador."

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Sobre a Lei de Assistência Técnica Gratuíta para Habitação Popular

Em cima do que o Clóvis comentou no FSM2009, queria fazer alguns comentários sobre esta lei, o que tem se falado sobre ela e principalmente sobre as possibilidades de aplicação dela no futuro próximo.

O momento histórico é inegável: estamos diante do reconhecimento dos serviços do profissional Arquiteto como necessários a construção da habitação popular no Brasil. Diferente do que é feito até aqui, onde um profissional tem de se disponibilizar – por seu risco e conta – a realizar um projeto para então captar recursos, a lei abre o precedente para ações, pesquisa, envolvimento anterior ao envio ao Ministério, repartição, apoiador, etc das propostas de arquitetura. Isso é importantíssimo para qualificar o trabalho! Ao invés de se fazer projetos de improviso, na paixão, ou jogando com os custos de um escritório – e não sei de nenhum que viva exclusivamente de habitação popular – poderá se buscar recursos para o envolvimento mais longo, profundo e principalmente, com tempo adequado a justamente a fase mais delicada de qualquer projeto: aquela da concepção, de ouvir e conhecer o usuário, de inserir qualidade arquitetônica na equação.

As alternativas existentes hoje para esta atuação são várias, mas jogam o arquiteto para o tipo do herói, do suicida, do franciscano ou do oportunista. Sem generalizações, as condições profissionais são essas e dificultam a formação – no interior do sujeito mesmo – do imaginário da habitação popular como possível. É sempre uma epopéia, cada 20 casas são uma maratona e a replicabilidade fica por conta daquelas instituições que conseguem, com um considerável investimento em infra-estrutura e grande capacidade burocrática, resolver a equação do investimento prévio e ganho tardio dos editais públicos, patrocínios privados, etc. Vejo a lei como capaz de gerar uma prática, uma tradição por assim dizer de trabalhar o popular, de poder desenvolver trabalhos mais sincronizados com a população e mesmo de ver a favela como cidade, o popular como cultura, o povão como ser humano e não como outra coisa, distante, que traz uma simpatia da piedade, mas não chega a desmistificar os estereótipos pré-concebidos, vencer a imagem de pobre como estatística.

Falando assim parece que tudo vai ser resolvido, mas claro que não será. Temos o Estatuto da Cidade, mas sua aplicação é misteriosa, temos o Fundo Nacional de Habitação Social, mas ainda a demanda é muito maior que a oferta de recursos e o “recarregamento” do Fundo é ainda exclusivo do Governo Federal (poderia ser de todos mesmo, da sociedade civil, empresariado, população beneficiada, etc). Entretanto, o modo de acesso aos recursos do FNHIS também aponta para uma possível explicação para um outro enrosco que tem surgido nas conversas: como será a operação desses recursos? Quem ganha, sob que critérios, com que prioridade? Como fica a capacidade dos arquitetos de prestar o serviço e o entrosamento com as comunidades - absoluta necessidade nesse campo?

O Clóvis aponta para um rodízio, em que os arqs. cadastrados – desde que preenchessem todas as condições exigidas – realizariam projetos alternadamente. Isso cria alguns problemas, mas é a alternativa mais democrática de distribuição dos serviços. Dessa forma certamente poderia haver um grande número de arquitetos entrando nessa linha de atuação e os profissionais poderiam ser expostos ao tema de maneira ampla, sem favorecimentos e outras maracutaias. Dentre os senãos, está claro, a aleatoriedade desse modo de distribuição – que não permite nem o favorecimento indevido quanto aquele meritório, por qualificação do profissional-, a pulverização das iniciativas entre um sem número de profissionais e provavelmente a uma burocracia pesada para ingresso nessa tal lista como modo de separar o “joio do trigo”, que é como Brasília tende a lidar com essas coisas. Isso até está na lei, quando fala que os arqs. poderão entrar desde que através de i"nstituições privadas sem finalidade lucrativa".

Alternativas a isso, existem a realização de editais, cartas-consulta, etc. que trazem o problema mencionado acima de o trabalho começar efetivamente antes de haver qualquer envolvimento efetivo; outra possibilidade seria a utilização das entidades de classe em concursos de projeto específicos e mesmo outras contratações - tudo menos licitação que pra projeto é ruim demais - e que poderiam complementar o rodízio. Acredito que ele somente dificilmente consiga responder a incrível variedade de demandas.

Um pouco como na formulação dos Planos Municipais de Habitação de Interesse Social (exigência do Estatuto das Cidades pros municípios acessarem o FNHIS), teria que se criar uma base para os projetos através de concursos mais amplos, que articulassem a cidade fomento a pesquisa, investimento em ressenciamento, trabalho de diagnóstico social, ambiental, levantamentos precisos e até em séries históricas dos indicadores mais importantes para esses trabalhos, etc etc.

Se o poder público, mesmo que através de um "Instituto da Habitação Social," de reopente nos moldes do IPPUC de Curitiba, pudesse fornecer as ferramentas necessárias, montar bases de dados robustas o suficientes para que o trabalho técnico conte com precisão e seja criteriosamente avaliado em sua atuação e o poder municipal fomentasse a autonomia efetiva nos Conselhos Administrativos Locais (descentralizando a sua atuação) e nos conselhos municipais temáticos, teríamos uma estrutura forte de distribuição de poder e de investimento técnico.

Para isso, creio que a estrutura montada pelo Orçamento Participativo dos Fóruns Regionais temáticos (Fórum de Habitação, Fórum de Assistência Social, que se agregam nos respectivos Conselhos Municipais) já fornece um apoio, principalmente por já sabermos de muitas de suas falhas que poderíamos corrigir e fortalecer a democracia. Nestes fóruns e conselhos, mais do que nas grandes plenárias, vê-se o envolvimento intenso de grupos sociais e pessoas com um determinado tema por vários anos, o que não permite o casuísmo nem a pulverização das decisões de da "inteligência social" acumulada, mas por outro lado favorece a criação de figuras de poder que teriam que ser articuladas como multiplicadoras e não centralizadoras.

Explorando um pouco mais este conceito, teria-se ainda uma série de sub-necessidades, como a tecnocracia e o corporativismo do empresariado nos Conselhos de Planejamento por exemplo (falo aqui de Porto Alegre, ao menos), a falta de efetividade para as decisões , a falta de informação das entidades populares ao entrar nestes sistema, etc etc etc.

Mais importante para a realização das possibilidades dessa lei é, no entanto, que haja a diferenciação criteriosa das demandas: não pode-se confundir, por exemplo, habitação de baixo custo com habitação de interesse social. Tem de se ter regras claras de participação e de seleção dos beneficiários e dos assistentes técnicos.

Além disso, acredito que esta lei deveria sim beneficiar a civil sociedade organizada, fugindo da aplicação caso-a-caso. Isso é algo a se discutir, mas penso que fortalecer os movimentos sociais aponta para soluções coletivas, e este, acredito, tem de ser uma das ênfases a serem dadas: autonomia dos indivíduos através da coletividade.