quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

No rastro de Sérgio Ferro - Resenha 01:


Proposta inicial para um debate: possibilidades de atuação (1963)

Texto em co-autoria com Rodrigo Lefevre, publicado originalmente pelo GFAU (USP) no Caderno Encontros.


Este texto é um manifesto redigido por Sérgio Ferro e Rodrigo Lefevre, então dois jovens professores da FAUUSP, com 24 anos. Uma espécie de convocatória aos estudantes e professores a definirem posições políticas e de atuação no contexto do auge do debate político das reformas de base. Adotando uma posição marxista, questionam a possibilidade de uma confluência harmônica entre um projeto popular e o desenvolvimento das forças produtivas por meio da industrialização, planejamento e racionalização da construção, pondo em questionamento as premissas modernas (ou, mais precisamente, modernistas, a respeito da habitação). Com isto dizem que o avanço destas forças, por si só, não é capaz de promover “igualdade social” e convocam os arquitetos e estudantes à luta de classes propondo uma aliança entre técnicos e trabalhadores, que será o mote de toda produção de Sérgio ferro no futuro. Lançam, também, uma idéia do que seria a poética da economia: a linguagem do indispensável estabelecida nas bases da nossa realidade histórica.


Assim, no início do texto é amplamente exposto o contexto de confusão e angústia no que diz respeito às posições e ações diante do processo de projeto e construção. Argumentam que desde as soluções mais diretas como a escolha da forma e orientação do planejamento até o enfoque global, “a direção primeira do pensamento, as inúmeras implicações de cada atitude embaralham a intenção e confundem o pensamento”. “A angústia originada se acentua pelas intenções estranhas e mesmo desconhecidas com que se apresentam os caminhos”. Ao mesmo tempo ressaltam que a escolha de um “lado” na luta de classes é necessária e está contida em qualquer atitude que se tome, por menos comprometido com isto que se esteja. “A síntese social destas contradições todas, não tendo sido realizadas ainda, não podemos pretender possuí-la no pensamento: isto envolveria uma posição de ilusória autonomia da razão que nos recusamos a admitir”. Aqui, como se vê, já é ressaltada a dinâmica do conflito, contrário ao ideal da “harmonia” vigente no período modernista, assim como o experimentalismo, uma das poucas formas dialéticas negativas “objetiváveis” em arquitetura em termos de formato de proposta, senão a única.


Neste texto já nota-se a forma embrionária do que virá a tornar-se a tese (O canteiro e o desenho, 1976) de Sérgio Ferro, a saber, a aliança entre os técnicos e os trabalhadores da construção civil, apesar dos problemas do marxismo tradicional presentes neste texto como a permissividade a idéias como nacionalismo e desenvolvimentismo, racionalismo que, porém, estavam muito ligadas à época histórica e eram amplamente justificáveis a alguém comprometido com a prática de Arquitetura naquela época. De forma que este texto não visava ser mais do que um “chute inicial”, uma colocação de problemas que forneceriam elementos dos quais partir, o que, de fato, foi. Segundo os autores, as soluções deveriam ser dadas de forma coletiva através dos mais variados pontos de vista, mas acabaram se desenvolvendo de forma um pouco diferente do proposto, como veremos.

Um comentário:

Maculele disse...

Pois vamo lá.
O Sérgio consegue chegar no que talvez seja o principal problema da profissão na época e mesmo hoje depois de inúmeras pseudo-revoluções tecnológicas e sociais: a raiz da alienação da atuação profissional calcada na forma-valor!
Não sabemos fazer de outro jeito mesmo hoje, e não são apenas as ferramentas, os modelos, tipologias, técnicas representativas de que carecemos!
Precisamos de nova ética, nova estética que, quiçás, podem ser vislumbradas no experimentalismo e nas fronteiras das técnicas, das estruturas, das tipologias, etc através destas "formas dialéticas negativas 'objetiváveis'".
Nenhuma novidade por aqui?
Pelo contrário! Aqui - graças aos Sérgio - mostra-se muito claro os limites da prática profissional e a necessidade de se "tomar um lado" da luta de classes.
Nós, como bons sujeitos pós-1989 já nos damos conta da inverdade da luta pelo controle do Estado e da própria contradição existente no sujeito histórico da Classe Trabalhadora. Nos colocamos a dúvida em relação a nossa própria profissão, mas também complicamos um tanto mais a questão ao duvidar do próprio sistema representativo-democrático e de suas ferrenhas disputas partidárias, do sistema sindical e suas lutas pelo trabalho (e não contra ou além do trabalho) e colocamos, até que se prove contraditório em grau maior, nossas fichas nos movimentos sociais de base que ao invés de buscar os meios para fazer, buscam o fazer já condicionando a mudança dos meios.
seguimos no próximo post.
abraços!