quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

No rastro de Sérgio Ferro - Resenha 02:


Arquitetura Experimental (1965)

Seleção (rebatizada) de textos que acompanham a apresentação de projetos de Sérgio Ferro, Rodrigo Lefevre e Flávio Império na revista Acrópole, n. 319, p. 23-44.


Neste ponto partimos da “poética da economia”. É neste texto que pela primeira vez os três arquitetos apresentam este conceito de forma experimental e mostram no que ele se diferencia da ideologia modernista, então fortemente dominante. Cabe dizer que hoje esta ideologia ainda é fortemente dominante dentro da academia, que, teoricamente, é onde se teria maior liberdade de experimentar. O texto começa com algumas frases bastante críticas de Flávio Império, principalmente ao espírito da época, que poderiam ter sido escritas semana passada:


Há quem se sinta profundamente moderno por afirmar que o nosso século é ‘caótico’ e que o mundo do nosso tempo é ‘non sense’. (...). O ‘caótico’ nasce de uma comparação simplista da aparência dos fatos ou duma ânsia idealista de significações finais para a ‘explicação’ do Universo.


Com isto, Flávio parece estar introduzindo a idéia de que o sentimento de “caos” que dominava nos meios nos quais se pensava a arquitetura buscavam os sistemas fechados em contraponto, o caos era levado em conta somente “incentivando o conforto heróico-masoquista dos dramas pessoais”. Argumenta que, para se “reter a história”, precisa-se buscar sistemas não-finalistas e móveis que permitam o conhecimento. “Conhecimento como forma de participação e não como explicação definitiva, instrumento de verificação e não ‘a verdade’.” Com estes argumentos, mostra que o significado social da arquitetura burguesa e modernista afasta a própria arquitetura dos vínculos mais objetivos com a realidade, o que a impede de agir no seu verdadeiro campo.


Rodrigo Lefèvre argumenta que a mais alta racionalidade dos países “desenvolvidos” não parece mais do que irracionalidade naquele momento no Brasil. Mesmo assim tentava-se importar modelos, o resultado foi subserviência e marginalidade da profissão, ou pior, Arquitetura como artigo de luxo.


Sérgio Ferro argumenta, dando continuidade, que somos impedidos de agir em nossas verdadeiras atribuições. Neste sentido nossas realizações são poucas e restritas, gerando uma ansiedade pela frustração crescente. Esta frustração adquire um caráter programático e militante: denuncia, fazendo papel de arquitetura de laboratório, ensaia inúmeras possibilidades técnicas e espaciais numa atitude de estímulo a transformações sociais profundas. “Não há como encontrar linguagem harmônica em tempos desarmônicos. Mas, e é o essencial, (o arquiteto) procura participar, dentro de um pensamento eminentemente crítico no momento presente.”


Após esta apresentação seguem-se cinco obras “experimentais” com algumas anotações valiosas em cada uma delas. Chama atenção a experiência frustrada da “Residência Boris Fausto”, no Butantã, com vedação industrializada. Frustrada não por causa dos trabalhadores, que se adaptaram muito bem à nova técnica, mas, segundo os arquitetos, as placas de vedação não corresponderam às amostras, vieram com defeito de fabricação, e acabou sendo necessário o uso de mata-juntas que não estavam previstas. Completa-se o quadro da obra: uma cobertura apoiada em quatro pilares formando terraços cobertos e a instalação elétrica aparente, fator de economia.


Residência Boris Fausto, Av. Afrânio Peixoto, SP, 1961. Arquiteto Sérgio Ferro


O que realmente chama atenção é que esta foi uma obra de transição. Após esta experiência o grupo de arquitetos decide explorar a possibilidade de racionalização das técnicas e materiais populares e tradicionais, descolando-se definitivamente da “modernidade construtiva”. Assim veio a “residência Bernardo Issler”, projeto de Sérgio Ferro. Esta obra parece ser determinante na “tese” que virá logo em 1976:


Residência Bernardo Issler, Granja Viana, Cotia, 1961. Arquiteto Sérgio Ferro - Fonte: Vitruvius


Sua racionalização, despreocupada com sutilezas formais e requintes de acabamento, associada a uma interpretação correta de nossas necessidades, não só favorece o surgimento de uma arquitetura sóbria e rude, mas também estimula a atividade criadora viva e contemporânea, que substitui, muitas vezes com base no improviso, o rebuscado desenho de prancheta.


Eis a “poética da economia”. O que também parece ser o gérmen que mais tarde dará origem à sua crítica ao brutalismo corbusiano, argumentando que na Europa ele não foi muito mais do que um estilo, mas nos países pobres ele é uma necessidade real que, inclusive, já era praticada, reivindicando para nós, tupiniquins, numa atitude irônica, o “brutalismo caboclo”.


Obs.: Cabe ressaltar que este tipo de abóbodas auto portantes começou a ser documentada no Uruguai só 1964 no trabalho do Arq. Eládio Dieste, que utilizava a tecnologia desde algum tempo antes de 1962 em forma de “bóvedas gausas”. Levando em consideração que a residência de Cotia foi construída em 1961 e a primeira residência construída por Dieste com a mesma tecnologia foi sua própria residência, em 1968, o grupo de arquitetos foi o primeiro a trazer este tipo de tecnologia de blocos cozidos para o “programa residência”. Este tipo de tecnologia é, em realidade, resgate de técnicas vernaculares, porém adaptadas ás forças produtivas da época.


Estas experiências foram interrompidas pelo golpe militar de 1964, o que caracterizou a obra de Sérgio Ferro sob o título de “Arquitetura nova” em 1967, sob o “corte”, a interrupção da esperança de transformação social que se prefigurava no Brasil.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

No rastro de Sérgio Ferro - Resenha 01:


Proposta inicial para um debate: possibilidades de atuação (1963)

Texto em co-autoria com Rodrigo Lefevre, publicado originalmente pelo GFAU (USP) no Caderno Encontros.


Este texto é um manifesto redigido por Sérgio Ferro e Rodrigo Lefevre, então dois jovens professores da FAUUSP, com 24 anos. Uma espécie de convocatória aos estudantes e professores a definirem posições políticas e de atuação no contexto do auge do debate político das reformas de base. Adotando uma posição marxista, questionam a possibilidade de uma confluência harmônica entre um projeto popular e o desenvolvimento das forças produtivas por meio da industrialização, planejamento e racionalização da construção, pondo em questionamento as premissas modernas (ou, mais precisamente, modernistas, a respeito da habitação). Com isto dizem que o avanço destas forças, por si só, não é capaz de promover “igualdade social” e convocam os arquitetos e estudantes à luta de classes propondo uma aliança entre técnicos e trabalhadores, que será o mote de toda produção de Sérgio ferro no futuro. Lançam, também, uma idéia do que seria a poética da economia: a linguagem do indispensável estabelecida nas bases da nossa realidade histórica.


Assim, no início do texto é amplamente exposto o contexto de confusão e angústia no que diz respeito às posições e ações diante do processo de projeto e construção. Argumentam que desde as soluções mais diretas como a escolha da forma e orientação do planejamento até o enfoque global, “a direção primeira do pensamento, as inúmeras implicações de cada atitude embaralham a intenção e confundem o pensamento”. “A angústia originada se acentua pelas intenções estranhas e mesmo desconhecidas com que se apresentam os caminhos”. Ao mesmo tempo ressaltam que a escolha de um “lado” na luta de classes é necessária e está contida em qualquer atitude que se tome, por menos comprometido com isto que se esteja. “A síntese social destas contradições todas, não tendo sido realizadas ainda, não podemos pretender possuí-la no pensamento: isto envolveria uma posição de ilusória autonomia da razão que nos recusamos a admitir”. Aqui, como se vê, já é ressaltada a dinâmica do conflito, contrário ao ideal da “harmonia” vigente no período modernista, assim como o experimentalismo, uma das poucas formas dialéticas negativas “objetiváveis” em arquitetura em termos de formato de proposta, senão a única.


Neste texto já nota-se a forma embrionária do que virá a tornar-se a tese (O canteiro e o desenho, 1976) de Sérgio Ferro, a saber, a aliança entre os técnicos e os trabalhadores da construção civil, apesar dos problemas do marxismo tradicional presentes neste texto como a permissividade a idéias como nacionalismo e desenvolvimentismo, racionalismo que, porém, estavam muito ligadas à época histórica e eram amplamente justificáveis a alguém comprometido com a prática de Arquitetura naquela época. De forma que este texto não visava ser mais do que um “chute inicial”, uma colocação de problemas que forneceriam elementos dos quais partir, o que, de fato, foi. Segundo os autores, as soluções deveriam ser dadas de forma coletiva através dos mais variados pontos de vista, mas acabaram se desenvolvendo de forma um pouco diferente do proposto, como veremos.

No rastro de Sérgio Ferro

Começamos, com esta pequena introdução, uma série de resenhas a respeito da obra de Sérgio Ferro, seguindo seu rastro, dívida antiga que estamos pondo em dia somente agora. Nós, jovens arquitetos que acabados de sair de uma das melhores universidades públicas do país, a UFRGS, sentimo-nos em dívida com esta produção teórica depois de tanto estudo de Teoria Crítica e nosso querido grupo de estudos, o Fim da Linha. Isto também é uma re-convocatória a todos que um dia iniciaram o estudo de “O capital” de Karl Marx, com vista noturna para a Redenção, no Van Gogh, boteco podrão da cidade baixa, ao qual sempre voltamos, assiduamente Van-goghianos que somos. Os estudos de Arquitetura e Trabalho Livre só são viáveis por causa destes precedentes, os quais temos de citar invariavelmente neste momento. Cabe lembrar aos leitores que as resenhas dos textos ficarão em ordem cronológica inversa por causa da dinâmica de postagem no blog, mas vale o esforço de ler em ordem. Pois, sem mais delongas, vamos à vaca fria.


Sérgio Ferro, como ele próprio se definiu, é um suicida do métier, ou, como costumamos chamá-lo, o carrasco do fetiche da arquitetura-mercadoria. Crítico da profissão fetichista do Arquiteto e Urbanista e seu instrumento, o desenho separado aliado ao canteiro de obras heterônomo, tentou levar a cabo os limites entre a profissão existente e uma comunidade de produtores livres, fundamentando assim sua obra no trabalho livre. (Sobre o vocabulário utilizado por Ferro e suas conseqüências teóricas versaremos em outra ocasião).


Formado na época da construção de Brasília, jovem arquiteto promissor, pintor, discípulo de Vilanova Artigas e Flávio Motta, participante do “lendário” grupo de estudos d’O Capital de Karl Marx na Rua Maria Antônia (USP) com Roberto Schwarz, Ruy Fausto, Emir Sader, entre outros. Foi, por décadas, acusado de traição, talvez por negar o desenho arquitetônico em prol do trabalho livre no canteiro, refugiando-se na academia e na pintura.


Creio, porém, como escreveu Walter Benjamin, que “ninguém havia percebido de que modo a miséria, não somente a social como a arquitetônica, a miséria dos interiores, as coisas escravizadas e escravizantes, transformavam-se em niilismo revolucionário.” Sérgio Ferro parece ter percebido quando fala do adorno como trabalho livre autodeterminado em Arquitetura. O “adorno é um crime”, sim, mas um crime contra a consciência burguesa. Porém vai bem mais longe do que o niilismo revolucionário do dia antes da festa, tenta realizar a festa.


Nenhum arquiteto havia percebido e demonstrado os lampejos desta “festa” de forma satisfatoriamente contundente antes, fazendo a devida interface da arquitetura com a crítica da economia política e com a filosofia hegeliana, tentando levar a arquitetura ao entendimento de esfera separada da vida social que a filosofia obteve com Hegel, na qual, mais tarde, Marx reconheceu um dos fundamentos do trabalho-mercadoria. Sérgio, acredito, lutou por fazer explodir as diversas “forças atmosféricas” ocultas na constituição da arquitetura como trabalho, como “manufatura serializada”, como técnica ainda residente no passado neolítico sob o falso signo da industrialização. Em suma, por amor à Arquitetura, negou-a como se fundamenta em nossa época, em nome da refundação de uma Arquitetura na qual o trabalho seja livre: é nela que vislumbra o melhor campo estético e técnico para a expressão coletiva deste tipo de “fazer”.


Em seus escritos mais recentes descreve com entusiasmo seu canteiro de obras em Grignam, vilarejo medieval onde mora no interior da França, o que traz à tona que o fato de que a experimentação arquitetônica real pode se efetivar em territórios “liberados socialmente” pelas organizações populares, como o MST, por exemplo, com o qual Ferro estabeleceu laços no Brasil. Afirma, através de experimentos, que a Arquitetura parece guardar o sentido experimental de autonomia produtiva melhor que outros “setores da economia”. Sua condição de “inclusão frágil” nos circuitos de acumulação parte do fim da linha a que chegou a sociedade de nossa época: é a chance para invenção de novas formas de organização social do espaço. Ou, em outras palavras, a arquitetura é o campo no qual ainda pode dar-se a aliança entre a pré-determinação do desenho e o experimentalismo do “trabalho livre” através do pacto entre técnicos e trabalhadores na liberação do potencial revolucionário do fazer em arquitetura. Isto, quando interrogado, deixa como tarefa para as próximas gerações, nós.


Sérgio afirma que: “o outro já germina no seu contrário e pode ser prefigurado sob forma de sua negação determinada”, circunscrevendo a arquitetura a uma dialética negativa e afirma que a critica radical ficará sempre aquém de si mesma se não for acompanhada de uma prática transformadora que pode dar-se através de aproximações sucessivas.


A seguir procederemos, em ordem cronológica, com alguns textos que mostram a trajetória de Sérgio Ferro até seu entendimento da Arquitetura mais contemporâneo. Partiremos dos primeiros textos de 1963, nos quais examina algumas “propostas” feitas com os companheiros Rodrigo Lefevre e Flávio Império até o “corte” de Arquitetura Nova, sob o regime militar, seguido de anotações que dariam origem a seu principal texto: O canteiro e o desenho, de 1976. No segundo momento analisaremos o próprio O canteiro e o desenho, que merece que nos atenhamos um pouco. Logo depois passaremos a seus textos da época de Grenoble, França, seguido da série de textos “recapitulações brasileiras” de seu livro “Arquitetura e Trabalho Livre”. Por último, dois textos de atualização e reafirmação de trajetória: Sobre o canteiro e o desenho e O desenho hoje e seu contra-desenho. Assim tentaremos recapitular a obra de Sérgio Ferro com a pretensão de conseguirmos avançar o debate em direção à liberação do potencial revolucionário na Arquitetura, com o qual já nos comprometemos a muito localmente. Esperamos seja tão construtivo aos leitores quanto tem sido para nós.


OBS: Todas as resenhas que serão apresentadas aqui são do mesmo livro (Sérgio Ferro – Arquitetura e trabalho livre, Cosac Naify, 2006), mas achamos por bem resenhar os textos por separado para recuperar o sentido de espaço de construção de conhecimento que precedeu cada texto. Assim, não faria sentido fazer uma resenha do livro como um todo sem separar por textos de cada época. Por isto optamos por escrevê-las separadamente.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Bye-Bye Bush?


Imagem madada pelo Brunão. Os caras que fizeram são Banksy. Muito clara a mensagem. É mais ou menos assim que funciona a irracionalidade do momento histórico, e que, apesar disto, se vangloria de seus progressos técnicos e tecnológicos através de seus megadispostos publicitários... "aproveitem, não vai durar para sempre!", "é só enquanto durar o estoque!", deveriam publicar em outdoors ou luminosos a respeito do ideário que os sustenta. Ah, aproveitando o ensejo, com Bush não vai a "era Bush". Ele só é especialmente estúpido, mas o que botou ele lá não mudou, aliás, é a mesma força que botou Obama no mesmo lugar. Aliás, é a mesma força que leva crianças para a Disney e se alimenta de lixo pasteurizado no McDonalds.

Bansy e outras coisas lindas da rua

"When I was a kid I used to pray every night for a new bicycle.
Then I realised God doesn’t work that way, so I stole one and prayed for forgiveness."

"Quando eu era um guri eu rezava todas as noites por uma bicicleta nova.
Depois me dei conta que Deus não funciona assim, então roubei uma e rezei por perdão."

- Emo Philips

É com essa singela frase que se apresenta o Bansky. Sem saber mais detalhes sobre isso, já vem a admiração pelos 2 murais absolutamente chocantes que constam na sua seção "da porta pra fora" :)

Essa vai em apoio as lindas coisas das ruas sujas e vivas desse mundo. Vai lá.








segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Vitória da população de baixa renda!!


APROVADA LEI DE ASSISTêNCIA TéCNICA GRATUITA!



O P R E S I D E N T E D A R E P Ú B L I C A

Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1o Esta Lei assegura o direito das famílias de baixa renda à assistência técnica pública e gratuita para o projeto e a construção de habitação de interesse social, como parte integrante do direito social à moradia previsto no art. 6o da Constituição Federal, e consoante o especificado na alínea r do inciso V do caput do art. 4o da Lei no 10.257, de 10 de julho de 2001, que regulamenta os arts. 182 e 183 da Constituição Federal, estabelece diretrizes gerais da política urbana e dá outras providências.

Art. 2o As famílias com renda mensal de até 3 (três) salários mínimos, residentes em áreas urbanas ou rurais, têm o direito à assistência técnica pública e gratuita para o projeto e a construção de habitação de interesse social para sua própria moradia.

§ 1o O direito à assistência técnica previsto no caput deste artigo abrange todos os trabalhos de projeto, acompanhamento e execução da obra a cargo dos profissionais das áreas de arquitetura, urbanismo e engenharia necessários para a edificação, reforma, ampliação ou regularização fundiária da habitação.

§ 2o Além de assegurar o direito à moradia, a assistência técnica de que trata este artigo objetiva:

I - otimizar e qualificar o uso e o aproveitamento racional do espaço edificado e de seu entorno, bem como dos recursos humanos, técnicos e econômicos empregados no projeto e na construção da habitação;
II - formalizar o processo de edificação, reforma ou ampliação da habitação perante o poder público municipal e outros órgãos públicos;
III - evitar a ocupação de áreas de risco e de interesse ambiental;
IV - propiciar e qualificar a ocupação do sítio urbano em consonância com a legislação urbanística e ambiental.

Art. 3o A garantia do direito previsto no art. 2o desta Lei deve ser efetivada mediante o apoio financeiro da União aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios para a execução de serviços
permanentes e gratuitos de assistência técnica nas áreas de arquitetura, urbanismo e engenharia.

§ 1o A assistência técnica pode ser oferecida diretamente às famílias ou a cooperativas, associações de moradores ou outros grupos organizados que as representem.

§ 2o Os serviços de assistência técnica devem priorizar as iniciativas a serem implantadas:

I - sob regime de mutirão;
II - em zonas habitacionais declaradas por lei como de interesse social.

§ 3o As ações da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios para o atendimento do disposto no caput deste artigo devem ser planejadas e implementadas de forma coordenada e sistêmica, a fim de evitar sobreposições e otimizar resultados.

§ 4o A seleção dos beneficiários finais dos serviços de assistência técnica e o atendimento direto a eles devem ocorrer por meio de sistemas de atendimento implantados por órgãos colegiados municipais com composição paritária entre representantes do poder público e da sociedade civil.

Art. 4o Os serviços de assistência técnica objeto de convênio ou termo de parceria com União, Estado, Distrito Federal ou Município devem ser prestados por profissionais das áreas de arquitetura, urbanismo e engenharia que atuem como:

I - servidores públicos da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios;
II - integrantes de equipes de organizações não-governamentais sem fins lucrativos;
III - profissionais inscritos em programas de residência acadêmica em arquitetura, urbanismo ou engenharia ou em programas de extensão universitária, por meio de escritórios-modelos ou escritórios públicos com atuação na área;
IV - profissionais autônomos ou integrantes de equipes de pessoas jurídicas, previamente credenciados, selecionados e contratados pela União, Estado, Distrito Federal ou Município.

§ 1o Na seleção e contratação dos profissionais na forma do inciso IV do caput deste artigo, deve ser garantida a participação das entidades profissionais de arquitetos e engenheiros, mediante convênio ou termo de parceria com o ente público responsável.

§ 2o Em qualquer das modalidades de atuação previstas no caput deste artigo deve ser assegurada a devida anotação de responsabilidade técnica.

Art. 5o Com o objetivo de capacitar os profissionais e a comunidade usuária para a prestação dos serviços de assistência técnica previstos por esta Lei, podem ser firmados convênios ou termos de parceria entre o ente público responsável e as entidades promotoras de programas de capacitação profissional, residência ou extensão universitária nas áreas de arquitetura, urbanismo ou engenharia.

Parágrafo único. Os convênios ou termos de parceria previstos no caput deste artigo devem prever a busca de inovação tecnológica, a formulação de metodologias de caráter participativo e a
democratização do conhecimento.

Art. 6o Os serviços de assistência técnica previstos por esta Lei devem ser custeados por recursos de fundos federais direcionados à habitação de interesse social, por recursos públicos orçamentários ou por recursos privados.

Art. 7o O art. 11 da Lei no 11.124, de 16 de junho de 2005, que dispõe sobre o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social - SNHIS, cria o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social - FNHIS e institui o Conselho Gestor do FNHIS, passa a vigorar acrescido do seguinte § 3o:

"Art. 11. .................................................................................

§ 3o Na forma definida pelo Conselho Gestor, será assegurado que os programas de habitação de interesse social beneficiados com recursos do FNHIS envolvam a assistência técnica gratuita nas áreas de arquitetura, urbanismo e engenharia, respeitadas as disponibilidades orçamentárias e financeiras do FNHIS fixadas em cada exercício financeiro para a finalidade a que se refere este parágrafo." (NR)

Art. 8o Esta Lei entra em vigor após decorridos 180 (cento e oitenta) dias de sua publicação.

Brasília, 24 de dezembro de 2008; 187o da Independência e 120o da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Guido Mantega
Paulo Bernardo Silva
Patrus Ananias
Márcio Fortes de Almeida


Salve prof. Albano, esta foi pra ti!

"A luta de classes que alguém educado por Marx jamais perde de vista é uma luta pelas coisas brutas e materiais sem as quais não existem as refinadas e espirituais. Mas na luta de classes estas coisas não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nesta luta sob forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, dofundo dos tempos. Elas quastionarão sempre cada vitória dos dominadores." - W. Benjamin

domingo, 4 de janeiro de 2009

Uma amostra de vizinhança

Depois de um belíssimo seminário sobre Reforma Urbana ("um conceito a ser construído") na ocupação do MNLM na Borges, com uma participação de conteúdo radicalmente crítico para Porto Alegre dos indígenas do morro do osso, eis mais uma surpresa do movimento para o centro da cidade:

MNLM + Coletivo Muralha Rubro Negra

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Feliz 2009!

"Minhas asas estão prontas para o vôo,
Se pudesse, eu retrocederia
Pois eu seria menos feliz
Se permanecesse imerso no tempo vivo."
(Gerhard Scholem, Saudação do anjo.)


Há um Quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. esta tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Esta tempestade é o que chamamos progresso.

Walter Benjamin, Obras Escolhidas, Ed. Brasiliense, 1° edição. Sobre o Conceito da História.

Sete e meia da manhã, de volta à querida Porto Alegre, Júpiter Maçã na vitrola ,vislumbrando lampejos de futuro. Feliz 2009! Tucuticotucupá-ha-ha!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O nome da foto é...


"Será que a bolha de Dubai está a ponto de estourar?"
ou Os Efeitos da Tal Crise na Louca Aventura das Arábias [titulo alternativo do ArqBlorum].

foto de Mark Horn no site da ArchRecord.

Uma nota de rodapé

"(...) A impressão que me fica é que o mix de reflexôes que o arquiteto de esquerda se debate, envolvendo estética, tecnologia, luta de classes voluntária e involuntária, finança, corrupção, política, demagogia, especulação imobiliária, planejamento, cegueira, enganação grossa, utopia, etc., tem uma relevância notável e que, a despeito da grossura escancarada, ou por causa dela, ele é como que o modelo para um debate estético realmente vivo. A diversidade, o peso e a incongruência atroz dos fatores que o debate dos arquitetos ambiciona harmonizar, naturalmente sem conseguir, são algo único. É o campo talvez em que a discussão estética de nosso tempo encontra, ou poderia encontrar, a sua expressão mais densa e propícia.(...)"

SCHWARZ, Roberto no posfácio de ARANTES, Pedro Fiori. Arquitetura Nova: Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões. São Paulo: Editora 34, 2002.

sábado, 22 de novembro de 2008

SYZYGY

Eis o que muitos de nós arquitet@s tentamos dizer: syzygy!

SIZÍGIA

Por Felipe Fortuna

Jornal do Brasil, Caderno Idéias & Livros, Sábado, 22 de novembro de 2008

Sempre que me envolvo em alguma discussão sobre vanguarda – e sobre as frágeis fronteiras entre as artes – penso na palavra sizígia. Para muitos, sizígia deve ter o efeito de rosebud, a palavra enigmática que explica e traz novas dimensões ao filme Cidadão Kane (1941). Sizígia significa, em astronomia, a situação na qual três corpos celestes permanecem, em algum momento, perfeitamente alinhados. Assim sendo, quando a lua, o sol e o nosso planeta se encontram na mesma linha reta – surge a sizígia (cuja raiz grega significa, justamente, conjunção ou união). Uma parte considerável das vanguardas parece buscar esse instante aleatório de harmonia durante o qual, em vez de destruição ou aniquilamento, passa a existir unidade que cria um objeto ou um fenômeno inteiramente novo. Seja na pintura, na literatura ou na música, o artista tenta muitas vezes introduzir elementos inesperados e intangíveis: o cubismo seccionou as imagens em novos planos visíveis; o enredo de um romance passou a ser a aventura lingüística, não os episódios fictícios; o tempo da melodia também se traduziu por emissão de luzes.

A primeira vez que li a palavra sizígia foi em Wordplay (1992), do artista gráfico John Langdon. No livro, a palavra grafada em inglês – syzygy – ganhou contornos ainda mais espetaculares do que em português – uma vez que exibe três letras iguais alinhadas por três letras diferentes, ou vice-versa, como se trouxesse a definição do conceito na sua existência material. A palavra também serviu para que John Langdon exercitasse, uma vez mais, a arte em que se mostra magistral: a do ambigrama.

O ambigrama é uma palavra estruturada a partir das suas relações de simetria, podendo ser lida, sem mudanças, de pelo menos uma posição oposta. Um aviso como o que se encontra, em inglês, numa academia de ginástica (“NOW NO SWIMS ON MON”, “Agora não se nada na segunda-feira”) pode ser perfeitamente lido de cabeça para baixo, uma vez que é simétrico a partir de um eixo horizontal. Em Wordplay, John Langdon se confessa inspirado pela representação de opostos e por sua harmonização, segundo conceitos que remontam ao taoísmo e à filosofia zen. O logotipo fundamental para a sua visão de simetria e do ambigrama é a representação do Yin e Yang, a circunferência que contém seus espaços igualmente preenchidos pelo branco e pelo preto e, dentro de cada uma dessas cores, dois pequenos círculos com as cores opostas. Com base nesses princípios, o artista gráfico começa a pesquisar modelos matemáticos e chega às obras de M. C. Escher, quando finalmente reconhece: ao pesquisar os pólos opostos, “sem qualquer surpresa, eu tentei fazer com as palavras o que Escher tinha feito com prédios, pássaros e peixes.”

Considere-se um ambigrama como seagulls (“gaivotas”) e toda a sua expressiva idealização do reflexo sobre a superfície do mar, além das linhas leves e arredondadas que se equiparam a asas. Considere-se também bridges (“pontes”) com sua tipografia a lembrar o material bruto da construção, que ainda sustenta, pequena, a letra i. A palavra bridge é em si mesma simbólica da conexão que se pode fazer entre um lado e o outro lado. Ambos os ambigramas podem ser encontrados, entre muitos outros, na página que seu autor atualmente mantém em www.johnlangdon.net, sempre lembrando que ele conseguiu construir um ambigrama com seu próprio nome. Na época em que li Wordplay, porém, dois belos ambigramas chamaram a minha atenção: Sometimes/Never e Perfection, que se utilizam da forma circular e da repetição ao infinito.

Em nenhum momento do livro – e tampouco em Inversions (1989), de Scott Kim, e Ambigrammi (1987), de Douglas Hofstadter – se menciona o poema visual ou o poema concreto. O princípio motriz das pesquisas de todos esses desenhistas gráficos, matemáticos e filósofos é a existência da sizígia entre, por exemplo, o taoísmo, a física e a palavra. Por vias completamente desconhecidas da série literária, e sempre de modo inesperado, as criações surgidas dessas pesquisas passam a ter evidente relevância para o debate sobre vanguarda e sobre os rumos do poema, este com o peso quase secular da “crise do verso”.

Por ora, parece importante lamentar a persistência daquilo que o cientista e romancista C. P. Snow chamou, em 1959, de “as duas culturas”: a separação entre os saberes científicos e os saberes humanistas. Talvez a vanguarda histórica – e, a partir de então, todas as vanguardas – possa demonstrar esse impulso de religação de tudo o que, na vida e na arte, deveria constituir um só elemento. Paradoxalmente, até mesmo a poesia concreta mereceria ser questionada em sua ambição verbivocovisual, pois estaria confundida a muitas outras manifestações semióticas: Marjorie Perloff, em Radical Artifice (1991), livro no qual comenta a poesia na era da mídia, não pressente diferenças entre o poema “Código”, de Augusto de Campos, e algumas placas de carro norte-americanas que estampam outros jogos de palavra. Controvertidas como sejam as vanguardas (bem como suas intenções e seus resultados), não se deve esperar a predominância de uma linguagem que descarte as demais: utopicamente, só mesmo um alinhamento em sizígia evitaria a cizânia.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Estruturas: variação, conexão e liberdades

A [contra-]tradição Moderna de Le Corbusier
No princípio do século passado, o arquiteto Le Corbusier pontuava seus 5 pontos (os pilotis, a planta livre, a fachada livre, as janelas em fita e o terraço jardim) como soluções a arquitetura que abarcariam, de uma só vez, o retorno às estruturas clássicas e a libertação do sujeito moderno da compartimentação e descontinuidade dos espaços promovida pelos movimentos correntes na arquitetura de então. Ainda mais, pretendiam alcançar a produção de uma nova sociedade através da ordenação correta dos fluxos e comunicações dos espaços privados e públicos.
No urbano, isso se traduz no Plan Voisin e demais planos utópicos modernistas a partir da tabula rasa, da liberação do solo urbano e da criação de comunidades suspensas, organizadas e planejadas através da continuidade estrutural, segregação dos usos e liberdade de circulação.

A retomada Situacionista da busca pela libertação da subjetividade
Em meados desse mesmo século, a Internacional Situacionista (IS) sugere uma nova libertação do sujeito, desta vez de todo e qualquer sujeito, sugerindo soluções através da revolução de toda a sociedade. Esta libertação, desta vez, é a própria libertação da Crise do capitalismo, do Espetáculo, do Mito do Herói – a busca pela experiência do espaço urbano, pela vivência integral do vivido. Estes são aspectos da própria crise da objetivação da subjetividade, ou seja, do tornar coisas as pessoas, de mediar todas as relações por matéria ou abstrações de materialidade (como o dinheiro) que distanciam o sujeito (aquele que faz) do desejo de sua ação (sua vontade de fazer) a ponto de esta última estar alienada ao primeiro, de sê-lo estranha, alheia, de impossível reconciliação, relegada à abstração fundamental do valor[1].
O artista plástico Constant Nieuwenhuys, membro fundador da IS em 1957 provoca a tradição moderna através de seu próprio ferramentário. Parte da visão de sociedade futura que prevê o fim da labuta – da necessidade de trabalho não-prazeiroso – através da automação total da produção e o início da sociedade do jogo na figura do homo-ludens – evolução social do homo-sapiens. Para esta sociedade liberta, o espaço não necessitaria seguir as funções modernas – trabalhar, habitar, recrear e locomover – mas apenas provêr oportunidades para o jogo: a deriva – a livre experiência dos espaços pelos sujeitos – e a construção de situações – jogos de ambiência e comportamento que colocam o fazer arte no cotidiano, a vida jogo, a vida arte.
Essa visão de sociedade tomou forma em inúmeras maquetes, pinturas, plantas, collages, impressões, filmes, gravuras, palestras e manifestos sobre New Babylon (Nova Babilônia), uma cidade-utopia que se colocaria por sobre a superfície da Terra, eventualmente cobrindo todo o planeta. Ela, como no Plano Voisin, suspenderia as atividades e deixaria o solo livre para circulação de veículos, pessoas e criação de imensos parques. Nos planos superiores, uma imensidão de espaços labirínticos em multiplos níveis, com características ambientais perfeitamente controláveis espontaneamente por qualquer de seus ocupantes – ou por “equipes situacionistas” – oportunizariam a criação das situações constante e continuamente, num jogo sem cessar de liberdade e exercício de subjetividade. “A vida social se torna jogo arquitetônico. Arquitetura torna-se a pulsante expressão dos desejos em interação”[2].
O tornar-se concreto das críticas sociais feitas ao Espetáculo e à alienação foi o pomo da discórdia entre Constant e Guy Debord, um dos fundadores e o principal expoente situacionista. Debord já era então conhecido por sua pureza conceitual e promovera o desligamento de diversos membros da Internacional Letrista – que precedera artisticamente a Internacional Situacionista – e desta última até o ponto de praticamente ser o único “aceito” como seu condutor. É, no entanto, Constant quem decide sair da Internacional Situacionista em 1959 por perceber que o movimento se afastava da crítica a cidade. Em entrevista em 1999 sobre as críticas de Debord ao seu trabalho posteriormente a seu desligamento da IS declara: “Eu não queria mais aquele contato , pois eu estava continuando de minha própria maneira e isso me afastou dos situacionistas. Debord e os outros situacionistas, voltaram-se mais e mais para a política, para afirmações políticas. A preocupação com o urbanismo, o Urbanismo Unitário estava desaparecendo lentamente.”
Fora este aspecto purista da IS, é valida a crítica a obra de Constant como promotora, ao mesmo tempo, da mais ampla liberdade e do potencial de controle absoluto. Esta contradição imanente às estruturas livres é aceita como não resolvida pelo próprio Constant que, de certa maneira, assume o caráter dúbio das estruturas (utópicas) na formação da sociedade: por um lado determinam o comportamento possível, por outro este comportamento é capaz de alterar profundamente sua função[3].
Em contraste a pesquisa plástico-formal-propositiva de Costant, escreve Debord sobre as tentativas de “realização” – de tornar real a crítica – da tese central sobre a vivência da cidade da IS, o Urbanismo Unitário, na Alemanha: “A contestação da sociedade atual no seu conjunto é o único critério de libertação autêntica, seja no âmbito das cidades, seja em qualquer outro aspecto das atividades humanas. Se assim não for, a ‘melhora’, o ‘progresso’, será sempre destinado a azeitar o sistema, a aperfeiçoar o condicionamento que necessita ser derrubado no urbanismo e em toda parte.”. Portanto, torna-se impossível qualquer tentativa de realização quando não for este movimento também total. Analogamente às criticas a Constant, Debord critica artigo de Henri Lefèbvre na Revue Française de Sociologie: “ O titulo do artigo ‘Utopia experimental: por um novo urbanismo’ [de Lefèbvre] já mostra todo o equívoco. Pois o método da utopia experimental, para corresponder de fato ao seu projeto, deve evidentemente açambarcar a totalidade, isto é, sua execução não deve levar a um ‘novo urbanismo’, mas a um novo uso da vida, a uma práxis revolucionária.”[4]
Vidler[5] cita Adorno para dizer que esta seria a própria contradição das utopias modernas, relacionando portanto Constant com a tradição do princípio do século XX. Em ambas, argumenta Vidler, há um desejo de descolamento da realidade – de utopia – que se contrapõe à sociedade opressora no mesmo momento em que busca não ser visto como utópico, de modo a “não ser culpada de administrar conforto e ilusão”[6].
O limite de Constant seria então sua própria ferramenta de libertação: a não definição de suas soluções na forma diagramática de sua apresentação[7] permite sua re-interpretação não em termos literais, materiais, mas em indicativos de possibilidades. Constant não presumia-se capaz de apontar as soluções para a cidade futura, nem mesmo se considerava responsável por realiza-la através da forma construída somente. Ao contrário disso, determinava-se a partir das formas existentes de cidade para negá-las e através de um diagrama utópico, apontar para possibilidades de futuro. Dessa maneira, se não resolve o dilema entre as diferentes naturezas das estruturas do espaço, tece, de maneira sensível e tensionada, uma relação dialética entre modelos contraditórios: de um lado, (mega)estruturas totalizantes que caracterizam e dão suporte ao todo, de outro, (micro)preenchimentos dinâmicos, labirínticos e eternamente incompletos.
Por outro lado, há também um movimento de negação e afastamento da cidade existente que já não é o do detournment: o fato de suas utopias pairarem por sobre a forma construída. Desse modo, exibem a impossibilidade de solucionar a cidade a partir da forma atual, rejeitam a sociedade e a expressão construída de sua cultura através do afastamento quase que completo, que, no mínimo, busca a compartimentação daquilo que é versus o porvir.
Semelhante neste aspecto está a tradição moderna e suas sucessivas críticas: Ville Radieuse, as cidades idealizadas dos construtivistas Chernikov e Leonidov, as mega-estruturas de van Eyck, Bakema, Woods e Yona Freedman e a releitura dos CIAM do TEAM 10.

Algumas reformulações contemporâneas
É a partir dessa bagagem crítica do moderno heróico que, ao final do século XX a figura auto-mitificadora de Rem Koolhas surge tratando destes temas de maneira ao mesmo tempo revigorada e carregada das mesmas contradições de ambos os movimentos. Por um lado, expõe em seus trabalhos iniciais como Delirious New York as estruturas compositivas das metrópoles capitalistas amadurecidas que, em Manhattan, teriam um de seus exemplos mais expressivos.
Nova Iorque seria um sistema de liberdade e autonomia para as peças individuais, ao mesmo mtempo em que as absorvia em sistemas-envolvente reguladores. Na análise de Koolhas, a grelha retangular funciona como o libertador dos movimentos, ao prover todos os pontos com acessibilidade máxima através da conectividade e da regularidade dos contatos. Por outro lado, esta estrutura em grelha é justamente o limitador geométrico base para a variação lote a lote: nenhum equipamento poderá se sobressair da estrutura completamente ao estar envolvido pela grelha democratizante.
O segundo grau de complexidade ocorre dentro dos lotes, mais especificamente na composição dos arranha-céus: a autonomia total entre andares permite a total indefinição programática e o descontrole funcional (em termos de planejamento das atividades) envolvidos em uma unidade coesa que é a torre do arranha-céus. Citando Koolhaas “Através do arranha-céu, cada lote da Metropolis acomoda – em teoria ao menos – uma instável e imprevisível combinação de atividades superpostas e simultâneas, cuja configuração está fundamentalmente além do controle do arquiteto ou planejador”[8].
Nesta composição há a libertação do conteúdo programático dentro dos envelopes estabelecidos. Para tanto, ocorreria o jogo de duas características-chave dos arranha-céus: a primeira é a estratificação independente vertical; a segunda é a unicidade criada pela pele envolvente independente, por sua vez, das atividades internas. “A genialidade de Manhattan é a simplicidade de seu divórcio entre aparência e performance: ela mantem a ilusão da arquitetura intacta, enquanto entrega-se de todo o coração as necessidades da metropole.”[9]
A formalização da genericidade através da planta-livre e da envolvente “neutra” ou alienada ao conteúdo (as atividades que ocorrem no interior e sua configuração formal) é no entanto limitada e a prática posterior de Koolhaas irá buscar novos limites a configuração estrutural da arquitetura. Em seu ensaio Bigness[10] (a característica de uma determinada edificação de simplesmente Ser Grande) Koolhaas sugere outro patamar de separação: aquele entre os grandes programas e a urbanidade – tanto por sua escala arquitetônica e física quanto por seu impacto urbano concentrado. Estes programas seriam por sí só capazes de “criar” seu entorno, ou seja, serem autônomos às pré-existências e às definições da urbanidade por encerrarem-se em sí mesmos e por criarem tal congestão e intensidade de uso que justificariam-se por sí mesmos.
A partir destas definições, Koolhas lança-se ao projeto para o concurso do Terminal de Zeebruge com a metáfora de uma “Babel Eficaz”. Concentra – em um único envelope de forma geóide – todo a multiplicidade do programa e de suas estruturas. Cria um envólucro unificador capaz de “domar” estruturas absolutamente diferentes, sem necessariamente reconciliá-las em nível mais fundamental. Desta forma, elementos tão diferentes quanto rampas de acesso a veículos, plataformas de embarque às balsas, áreas de hotel, restaurantes, cassino, cinemas e outros programas menores são justapostos e sobrepostos no interior de um todo que busca lhes conferir unidade.
O mote mais saliente nesta proposta é justamente a dissociação entre forma externa e estrutura/atividade interna: enquanto a forma externa é de “difícil classificação”, ela engole os programas, negocia átrios de diversos pavimentos de altura com rampas e plataformas articulados em duas grandes metades do geóide, cortadas no sentido vertical e unidas somente no topo por um imenso domo de vidro com terraços. A forma externa é propositadamente indefinível: volume derivado de um imenso cone com sua ponta menor apontando para baixo e encimado por uma semi-esfera, perfurado aleatoriamente e com a visível intenção criar a sensação de desequilíbrio de massa, com o topo mais “pesado” que a base. Desta maneira, Koolhaas quer evitar o fácil reconhecimento ou a identificação – no sentido que em Adorno define – e tornar o objeto monumental, destacando-se a qualquer custo na paisagem monótona da zona portuária: “como injetar um novo ‘símbolo’ na paisagem que – através da atmosfera e escala somente – torna qualquer objeto tanto arbitrário quanto inevitável”[11].
As atividades internas, enquanto isso, assumem formas bastante utilitárias. As rampas tomam formas diretamente derivadas de obrigações de eficiência geométrica: grandes círculos ao redor do núcleo central. As áreas do hotel e restaurantes são imensas lajes planas com forma de semi-círculo, como que cortadas por linhas radiais ao redor dos átrios que perfuram do topo a base o grande edifício. Escritórios são baias distribuídas perimetralmente junto às paredes externas. As plataformas de acesso aos navios são grandes braços treliçados atirantados ao volume e que se projetam em sua totalidade para fora dele, em direção ao mar. O todo criado por essas justaposições verticais e horizontais busca o monumental tanto interna quanto externamente: há grandes átrios, continuidades verticais através das escadas rolantes e elevadores, a unidade externa citada, as perfurações ciclópicas na casca unificadora e o gigantismo das treliças das plataformas e das bandejas dos acessos de veículos que buscam o estranhamento da escala do edifício em relação à humana. Assim, a lógica estrutural e espacial são também múltiplas e divergentes, unidas apenas na sua subsunção ao todo envolvente.
Diversos projetos do arquiteto holandês progridem nessa exploração formal da dissociação. O edifício Congrexpo em Lille é composto por três programas formalmente independentes, porém conectados e unidos sob o mesmo teto numa assumida “organização das aparências”, enquanto a proposta para a Très Grande Bibliothèque de Paris em 1989 faz ainda um diálogo dessa dissociação com o vazio, tendo como ambição declaradamente “livrar a arquitetura de responsabilidades que não pode mais sustentar e explorar esta nova liberdade agressivamente”, assim, arquitetura teria a missão de criar “novos espaços simbólicos que acomodam o desejo persistente de coletividade”[12].
Neste último projeto, a tradição cartesiana moderna enfrenta o encontro com a aleatoriedade dos vazios. O espaço torna-se um diagrama desta disputa: dezenas de imensas lajes quadradas e perfeitamente ortogonais repetem-se verticalmente sustentadas por nove imensos pilares-elevadores-outdoors distribuídos também perfeitamente ortogonalmente e são “cortadas” por diversos vazios das bibliotecas dentro da grande biblioteca. O programa é visto também como um imenso contêiner: toda a informação do mundo – seja ela eletrônica, analógica, impressa, ou gravada – disponível em um único e gigante objeto urbano. Desta forma o conceito de Ser Grande[13] aparece em sua qualidade obliteradora de individualidades: através de sua escala, é criada a unidade e o sujeito (qualquer que seja) é tornado submisso: é a própria aceitação da condição de Crise.
Desta maneira, torna-se evidente a contradição essencial a esse esforço: por um lado, busca-se criticar as fronteiras das estruturas do espaço e da arquitetura, mas por outro assume-se determinada postura de limitação a crítica – a submissão a condição de estar dentro da crise. Koolhaas mostra como a arquitetura pode ser a antena do caracol, que tateia no escuro da Crise em busca de saídas, mas ao mesmo tempo reproduz de maneira intensa as características mais marcantes dessa Crise na limitação a capacidade de ação do sujeito arquiteto – aquele que concebe o espaço e antevê suas possibilidades – nas condições existentes da sociedade. Desta forma, me parece que clara a postura de ser agente social, mas não a de ser o protagonista na revolução do sujeito e de sua libertação.

Conclusão
É a partir deste viés que chegamos ao que consideramos a condição da arquitetura e das estruturas na libertação do sujeito. A nossa capacidade – enquanto arquitetos – é a de superar as formas existentes na busca pela liberdade de ação do sujeito contemporâneo, seja ele pobre, rico, trabalhador ou empresário. Não entrarei aqui no mérito da questão do sujeito revolucionário pelo próprio diagramatismo das questões aqui expostas. Por outro lado, somos limitados a atual função destinada ao arquiteto e ao projeto arquitetônico na sociedade, que são extrema e historicamente conectadas as maneiras dominantes de produção de cidade.
Nessa discussão, os tipos estruturais nos trazem enormes potenciais de configuração para a variação e liberdade. São o ferramentário para a realização dos discursos, conceitos e críticas a sociedade existente e suas cidades. Desta forma, buscamos o que seja condizente com os desejos de mudança em frente à crise que se desenrola e que apresentem possibilidades de superação a ela. No panorama das críticas sociais, as formulações utópicas têm importância ímpar de propor, para crítica, possibilidades aparentemente factíveis para sua realização. Esta ingenuidade natural – licença poética em nome da revolução das formas – por sua vez promove uma libertação das situações existentes em direção a sua negação e superação em novas maneiras de se viver e habitar.
Esta libertação, por sua vez, tem enorme importância por tentar ir além do que há sem partir de bases já corrompidas pelos seus vícios ou que não necessitem em tese de seus mecanismos sociais para se realizar. A falsa capacidade de clarividência que têm aponta a lampejos do que poderá acontecer, direcionando tanto a crítica quanto a prática profissional para a realização das revoluções e reformas e evoluções necessárias e possíveis.
É em grande parte a este apontar de direção que podemos interpretar diversas novas ferramentas extremamente reais e diretamente aplicáveis e, por isso, fadadas ao fracasso quando postas em contraste com as utopias. O choque entre o que acontece por continuidade com que o existe – e portanto não tem capacidade de libertação efetiva desde seu início, esforço natimorto – e as utopias que rechaçam o existente e buscam a maior autonomia em relação a realidade de que são capazes – e que, mesmo não tendo sucesso completo ou até mesmo sem ser realizadas, condicionam os esforços subseqüentes a ir além e quebrar ainda mais com a base existente.
Nos parece claro, no entanto que esta aparente impossibilidade de realização é inescapável e não deve ser o motivo pelo qual não devamos buscar a realização das críticas. Pelo contrário, ela é a garantia de que nem hoje nem no futuro conseguiremos alcançar as soluções finais propostas pelo racionalismo e por tantos outros movimentos intelectuais, mas que o esforço por libertar-se do existente necessita ser contínuo, até mesmo cotidiano, para alcançar a revolução pretendida.
Dessa maneira, o resgate e articulação das estruturas nas obras de Constant e Koolhas, por mais babilônicas que sejam e mesmo que aconteçam através de processos completamente inseridos na história atual e na sociedade exploradora do capital permitem – como periscópios em submarinos – vislumbrar possibilidades de liberdade condizentes com os conceitos críticos dos quais partimos.
Novamente, o caráter dúbio das configurações se apresenta de maneira a salientar a impossibilidade de ver – de onde estamos – o fim da história e A Revolução tão sonhada em épocas passadas e nos obriga a criticarmos a nós mesmos enquanto buscamos novas soluções mais críticas que as de ontem e menos que as que virão.
Longe de demonizar Koolhaas ou de santificar Constant ou outro pensador revolucionário, devemos justamente desconstruir os mitos de heroísmo existentes no Espetáculo e buscar as ferramentas para o exercício da subjetividade nas cidades e em toda a arquitetura.Isto certamente passa por criticar a condição supostamente científica da arquitetura e seu papel como mera metafísica alienante à subjetividade na criação do espaço.
Acreditamos que as soluções habitam diversos tempos e escalas diferentes, sendo também ingênuo pensar que há apenas uma ou outra urgência. Dessa maneira, cabe a todos os momentos da construção da vida cotidiana a crítica e sua realização. Talvez a chave que falte para abrirmos estas portas é a crítica ao fazer arquitetura em sua totalidade, sem que se apegue a elementos, formas ou métodos específicos, mas que busque a renovação integral, mesmo que isso signifique sua dissolução enquanto disciplina.
A partir desta afirmação, propomos o estudo das estruturas como uma das ferramentas para libertação do processo de projeto do arquiteto e da própria construção do projeto: definições coletivas, execuções participativas e variações durante a vida das edificações seriam inseridas como germens através da adaptabilidade das estruturas. Sabendo que esta é uma atuação incompleta, busca-se dotar o projeto (como processo) não só da capacidade de evoluir e modificar-se, mas da incerteza de sua concretização em forma determinada. Busca-se colocar uma dúvida essencial dentre os elementos projetados.
Os diferentes tipos estruturais, por sua vez são formas incompletas dessa variação: permitem diversas situações de configuração espacial, mas são, sabidamente, limitados na sua capacidade de libertar, pois já condicionam as variantes possíveis. Além disso, surgem diversas contradições em cada modelo estrutural existente, que permitiram maior ênfases em determinadas variações e facilitarão certas atividades em detrimento a outras.
A prática da arquitetura e do projeto, que nasce da gênese da modernidade no renascimento[14], já é a metafísica que irreconcilia – como verbo ativo – a capacidade do sujeito de determinar o espaço. Ela se fragmenta em ideologias, assume as formas do momento, os métodos mais interessantes encerrados sí próprios e falha em realizar a superação da abstração valor enquanto mediadora da realidade com o sujeito. Agrava este fato ao ser fragmentada em especialidades na sua prática e parte já do princípio científico iluminista da Verdade, com a qual já construiu verdadeiros crimes espaciais.
Necessitamos, portanto, de uma ampla revisão dos postulados mais básicos de nossa atuação em sociedade. Para isso, no entanto, não acreditamos que a inação ou a crítica negativa apenas sejam soluções possíveis. De outra maneira, pensamos na natureza da prática como possibilitadora de brechas e rachaduras processuais nas quais se insiram oportunidades de superação. Ao mesmo tempo, clamamos pela crítica abrangente às ações arquitetônicas na sociedade, especialmente através da construção de bases estruturais e espaciais que em sua gênese intelectual, concretização e utilização permitam aos sujeitos a realização de sua autonomia.
Não é tarefa fácil, mas caminhando perguntamos.

REFERÊNCIAS E NOTAS:
1. Para uma avaliação profunda do tema do valor, sugiro JAPPE, Anselm. As Aventuras da Mercadoria: Para uma Nova Crítica do Valor. Lisboa: Antígona, 2006. Como alternativa online, os grupos Krisis (http://www.krisis.org/) e Exit (http://www.exit-online.org/), ambos em Alemão e, com certo vício de origem, grupo Fim da Linha (http://www.fimdalinha.1br.net).
2. WIGLEY, Mark. New Babylon. The Hyper-architecture of Desire. Uitgeverij: Ed. 010, janeiro de 1998. Citado em http://members.chello.nl/j.seegers1/situationist/constant.html, visitado em 02de setembro de 2008.
3. BUCHLOH, Benjamin. A Conversation with Constant. Nova Iorque, 30 de outubro de 1999 in WIGLEY, Mark (ed.). The activist drawing retracing situationist architectures from Constant's New Babylon to beyond. Nova Iorque: The Drawing Center, 2001, pag. 15-25.
4. DEBORD, Guy. Crítica ao Urbanismo in JAQUES, Paola Bernstein Jaques (org.). Apologia da Deriva: Escritos Situacionistas sobre a Cidade. Rio de Janeiro: Ed. Casa da Palavra, 2003.
5. VIDLER, Anthony.Diagrams of Utopia. in WIGLEY, Mark (ed.). The activist drawing retracing situationist architectures from Constant's New Babylon to beyond. Nova Iorque: The Drawing Center, 2001, pag. 83-91.
6. Em inglês no original: “not to be found guilty of administering confort and illusion”. ADORNO, Theodor, Aesthetic Theory. Londres: Routledge and Kegan, 1986. Citado em WIGLEY, Mark (ed.). The activist drawing retracing situationist architectures from Constant's New Babylon to beyond. Nova Iorque: The Drawing Center, 2001, pag. 91.
7. Cujo significado não está totalmente presente, mas está por ser descoberto, interpretado, no sentido da definição de Deleuze para diagrama.
8. KOOLHAAS, Rem cit. In CORTES, Juan Antonio in El Croquis n°131/132: OMA AMO 1996-2003. Barcelona: El Croquis Editorial, 2007.
9. Idem.
10.
Sugiro enfaticamente a leitura deste capítulo, Bigness, or the Problem of Large em KOOLHAAS, Rem e MAU, Bruce. S, M, L, XL. Nova Iorque: The Monaceli Press, 1995. Pags. 494 a 517.
11. idem.
12. KOOLHAAS, Rem e MAU, Bruce. S, M, L, XL. Nova Iorque: The Monaceli Press, 1995. Pag. 582.
13. KOOLHAAS, Rem e MAU, Bruce. S, M, L, XL. Nova Iorque: The Monaceli Press, 1995. Pag. 604.
14. Para esta crítica a prática arquitetônica, sugiro ARANTES, Pedro Fiori. Arquitetura Nova: Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos Mutirões. Sâo Paulo: Editora 34, 2002.